segunda-feira, 17 de maio de 2010
O ESPÍRITO SANTO
segunda-feira, 19 de abril de 2010
TESTEMUNHO QUE CHAMA
Celebramos, no próximo dia 25 de Abril, Domingo do Bom Pastor, a 47ª Semana de Oração pelas Vocações. Na sua mensagem para este dia, o Papa Bento XVI convida “os presbíteros, os religiosos e religiosas a serem fiéis à sua vocação, ajudando todos os cristãos a responderem à sua vocação universal à santidade”. O testemunho suscita vocações! O testemunho quotidiano e concreto de uma vida totalmente doada a Deus, na fidelidade e na alegria, impressionará e suscitará tantos homens e mulheres a experimentarem o dom da vocação. Assim o fez São João Maria Vianney no contacto com os seus paroquianos e com aqueles que procuravam os seus conselhos de pastor e guia. Todo o cristão é um ser vocacionado: em primeiro lugar, à Vida, depois, à vida de filho de Deus pelo Baptismo, levando este dom à perfeição através da vocação presbiteral, religiosa, matrimonial ou celibatária. Ser vocacionado é escutar, em cada época e em cada história, a voz de Deus, que Se comunica que variadíssimas formas. Quero, neste mês essencialmente vocacional, mostrar, caro leitor, como o Cura d' Ars ensinava com o testemunho da sua vida os fiéis a aproximarem-se mais de Deus e a serem interpelados por Ele; como o Santo era mediador entre o Senhor que chama e aquele ou aquela que sentia interpelado(a).
Contam os seus registos biográficos que, no ano de 1836, o casal Millet, de Mâcon, resolveu passar alguns dias em Ars para poderem estar com o Santo Cura d' Ars. Com efeito, puderam falar-lhe. Mas a filha Luísa Colomba, que tinha ido com eles, não queria de modo algum entrevistar-se com o servo de Deus. Não obstante, era boa e piedosa. Os peregrinos estavam prestes a sair de Ars, após uma semana de permanência naquele povoado. Foram pela última vez à igreja, quando o P. Vianney passava para a sacristia. Guiado por uma intuição sobrenatural, lançou à multidão um olhar penetrante e fez sinal com o breviário a Luísa Millet. Ela compreendeu logo. Tinha que se render. A multidão abriu-lhe passagem e com um gesto o Santo apontou-lhe o confessionário. A jovem ajoelhou-se. Depois de uma breve conferência, ouviu a palavra que iria orientar toda a sua vida. “Minha filha, serás religiosa visitandina. Deus o quer... Deus o quer”. A penitente resistiu. Mas o Cura d' Ars repetiu pela terceira vez: “Minha filha, Deus o quer”. As dificuldades que tinha a vencer pareciam insuperáveis. Todas se aplanaram por si mesmas. E Luísa Colomba, livre de todos os liames, levantou o voo para a arca santa. Morreu no mosteiro em 20 de Agosto de 1908, cheia de méritos, com a idade de 89 anos e com 64 de profissão religiosa.
Outro exemplo. “Meu padre, perguntava-lhe um sacerdote ajoelhado aos seus pés, hei-de alimentar em mim os desejos da vida religiosa, que sinto tão vivamente desde o segundo ano que estive no seminário maior, ou seja já aos vinte anos?” Respondeu-lhe o Cura d' Ars sem rodeios: “Sim, meu amigo, este pensamento vem de Deus; é preciso cultivá-lo.
Nesse caso, meu Padre, permitir-me-á deixar o cargo que ocupo (este sacerdote era professor num seminário menor) e entrar para uma ordem religiosa? Que acha melhor?
Devagar, meu amigo. Fique onde está. Saiba que Deus manda, às vezes, bons desejos, cuja realização nunca exigirá neste mundo”.
O P. Vianney, às pessoas casadas, fazia-lhes ver a grandeza da sua vocação, exortando-as a cumprirem santamente as suas obrigações. Uma senhora, que já tivera muitos filhos, ia ficar mãe novamente. Foi buscar coragem junto do Cura d' Ars. Não precisou de esperar muito, pois o Santo chamou-a de entre a multidão.
“Estás tão triste, minha filha - observou-lhe quando se ajoelhou no confessionário.
Ah! Sim, já estou tão velha, meu Padre!
Ânimo! Não te assustes com o fardo! Nosso Senhor carrega-o contigo. O que Deus faz é bem feito. Quando concede a uma mãe muitos filhos, é sinal de que a julga digna de educá-los. É da parte d' Ele prova de confiança.
Estes três exemplos mostram-nos como São João Maria Vianney era um instrumento do qual Deus se servia para chamar, para guiar os homens no caminho da sua história. A santidade da sua vida e a sua prudência sobrenatural nas decisões inspiravam às almas justas uma confiança sem limites. Ser vocacionado é perscrutar em cada dia a voz e o sopro do Espírito; é testemunhar que vale a pena aspirar ao Mais!
Nunca esqueçamos de rezar pelas vocações! Confiemos à Senhora do Sameiro, Mãe do Sim, todos aqueles que se sentem chamados e inquietados por Deus para que saibam acolher, em cada dia, o que Deus quer!
Arnaldo Vareiro
terça-feira, 30 de março de 2010
EUCARISTIA, NUTRIÇÃO DOS FILHOS DE DEUS
“Meus filhos, todos os seres da criação têm necessidade de se nutrirem para viver; foi para isso que Deus fez crescer as árvores e as plantas; é uma mesa bem servida onde todos os animais vêm cada um tomar o alimento que lhe convém. Mas é necessário que a alma também se nutra. Onde está, pois, o seu alimento?... Meus filhos, quando Deus quis dar alimento à nossa alma para a sustentar na sua peregrinação neste mundo, olhou para todas as coisas criadas e não encontrou nada digno dela. Então concentrou-se em si mesmo e resolveu dar-Se a si próprio...
Oh! Minha alma, como és grande! Só Deus te pode contentar!... O alimento da alma é o Corpo e o Sangue de Deus!... Oh! Formoso alimento! A alma não se pode alimentar senão de Deus. Só Deus lhe pode bastar. Só Deus a pode saciar. Fora de Deus não há nada que possa saciar a sua fome. Necessita absolutamente de Deus... Que ditosas são as almas puras unidas a Deus pela comunhão. No céu resplandecerão como formosos diamantes porque Deus Se reflectirá nelas... Oh! Vida ditosa! Alimentar-se de Deus! Oh! homem, como és grande. Nutrido, abeberado com o Corpo e o Sangue de um Deus! Ide, pois, comungar, meus filhos!...”
Que palavras cheias de ardorosos apelos e exclamações sublimes nos deixa o Cura d' Ars! Somos convidados a permanecer no Lado Aberto do Senhor Jesus, trespassado no alto da Cruz. Pela comunhão eucarística, o Coração de Jesus estende a sua morada a cada coração humano. No Coração de Cristo, o Pai prepara-nos um banquete, ao qual não devemos faltar, pois a Eucaristia é o maior dom do amor de Deus e é necessário corresponder a tal dom. O Amor reclama amor.
Neste tempo pascal, saibamos permanecer, pela comunhão eucarística, mergulhados no abismo de misericórdia e beleza, isto é, na chaga aberta para sempre do Lado de Cristo, na e pela qual fomos salvos e redimidos dos nossos pecados!
sábado, 27 de março de 2010
O JESUS DA PÁSCOA
Não é fácil descrever o Jesus da sua última semana entre os humanos. Contudo, com os textos bíblicos nas mãos, poderíamos entrar no seu coração para percorrer com Ele o duro caminho da Paixão à alegria da Páscoa.
A entrada triunfal em Jerusalém não pode ter produzido n’ Ele os efeitos de uma mudança de consciência para o fazer sucumbir diante de tanto triunfalismo. Já o tinha pré-anunciado três vezes: o Filho do Homem devia sofrer e morrer em Jerusalém. Esta consciência da sua missão unia-se à compaixão de ver o seu povo “com ovelhas sem pastor”, à espera de um Messias e um Reino que tinham muito pouco a ver com Ele e com a sua mensagem. Jesus seguramente sabia que o “Hossana!” desse domingo se transformaria no “Crucifica-O” da Sexta-Feira Santa.
Dois dias antes da celebração da Páscoa com os seus discípulos, Jesus sai de Jerusalém para Betânia, a poucos quilómetros dali, onde Maria, a irmã de Lázaro, antecipa a sua sepultura ungindo-lhe a cabeça com um perfume valioso (Jo 12, 1-8). Betânia, para Jesus, era o lugar da amizade, era o calor do lar fraterno, onde o Mestre parece procurar a força humana oferecida pela proximidade dos amigos, antes de enfrentar a dor da traição de judas.
A dor que essa traição pode ter provocado em Jesus é incalculável. Sobretudo se a unirmos às traições dos outros discípulos que, embora sem receberem trinta moedas de prata como recompensa, adormecem quando Ele lhes pede que velem ao seu lado, não duvidam em abandoná-lo quando é levado ao tribunal e, inclusive, negam tê-Lo conhecido, como Pedro na noite de Sexta-feira Santa.
Os maus-tratos dos dois tribunais, a incompreensão da sua missão por parte de quem – supunha-se – melhor O devia entender, a humilhação das zombarias e o escárnio dos soldados, a sede, a dor dos chicotes, o peso da cruz... pouco a pouco iam destruindo o seu corpo para revelar a grandeza de Deus.
As dores sobre a cruz, a lenta agonia de quase três horas, são indescritíveis. Só nos resta contemplar em silêncio, ou melhor, descrevê-los servindo-nos do quarto cântico do Servo de Iahveh que Isaías escrevera:
“(...) Muitos ficaram espantados por causa dele, pois já não parecia gente, tinha perdido toda a aparência humana... desprezado e rejeitado pelos homens, homem de sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo diante do qual se tapa o rosto, ele era desprezado e não fizemos caso dele... Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca... Foi preso e julgado injustamente... A sua sepultura foi colocada junto dos ímpios e o seu túmulo junto dos ricos, embora nunca a mentira estivesse na sua boca...” (Is 52, 14; 53, 3-4. 7-9).
O Gólgota marca o ponto final do aparente fracasso: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Jesus morre na cruz.
Contudo, no primeiro dia da semana, com as primeiras luzes da aurora, Jesus Ressuscitado aparecerá às mulheres que, chorando no sepulcro, pensam que alguém roubou o seu Senhor. Se o seu corpo glorioso não lhes permite reconhecê-Lo imediatamente, a doçura inconfundível da sua voz volta a expressar a compaixão de sempre: “Mulher, porque choras? Quem procuras?” (Jo 20, 15).
E, ante a tentação da mulher para O deter, responderá com o desapego necessário para a missão que começa: “Vai dizer aos meus irmãos...” (Jo 20, 17).
A partir desse momento, à luz da Ressurreição, a Igreja celebrará, catequizará e anunciará o Senhor Jesus que, sendo embora de condição divina, “não Se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a Si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens. Assim, apresentando-Se como simples homem, humilhou-Se a Si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz! Por isso, Deus O exaltou grandemente, e Lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao Nome de Jesus, se dobre todo o joelho no Céu, na Terra e sob a Terra; e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2, 6-11).
Através dos séculos, a genuína pregação da Igreja é a que foi fiel a este “Kerigma”, a este anúncio de Cristo crucificado; mas ao mesmo tempo ressuscitado pelo poder do Pai e constituído por Ele “Senhor e Messias” (cf. Act 2, 36).
Devemos aceitar que durante muito tempo a pregação e piedade popular tenham posto o acento na morte, ocultando a Ressurreição de Jesus.
É oportuno, por isso, realçar que essa “espiritualidade da cruz” também deve “ressuscitar” à luz da Vida nova do Ressuscitado.
A Igreja está ao serviço da vida porque é o corpo de Cristo, o Senhor da Vida. Desta forma, pretende tornar suas, em cada dia, as palavras de Jesus: “Eu vim para que tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).
Arnaldo Vareiro
sábado, 13 de março de 2010
Capítulo I da Dei Verbum - A REVELAÇÃO EM SI MESMA
(Natureza e objecto da Revelação)
2. Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade, por meio do qual os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e n' Ele se tornam participantes da natureza divina. Por consequência, em virtude desta revelação, Deus invisível, na abundância do seu amor, fala aos homens como a amigos e dialoga com eles, para os convidar à comunhão com Ele e nela os receber.
Este plano “da revelação” concretiza-se por meio de palavras e acções intimamente ligadas entre si, de tal modo que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras. As palavras, porém, proclamam as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Todavia, o conteúdo profundo da verdade tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação.
A revelação aqui descrita é a revelação na sua fase activa e constituinte, que se concretiza pelas vias da história e da encarnação. Ela é um efeito do beneplácito de Deus: placuit (cf Ef 1, 9-10). É graça. É livre iniciativa de Deus. É obra de amor, que procede da bondade e da sabedoria de Deus. Reparemos que a bondade de Deus é colocada, pelo texto, em primeiro plano.
O Concílio personaliza a noção de revelação: antes de dar a conhecer algo, isto é, o desígnio de salvação, o próprio Deus se revela. Veja-se como o mistério Paulino evoca este desígnio salvífico. O mistério é o plano divino total; o mistério é Cristo.
Em que consiste o plano salvífico acerca da humanidade? O desígnio de Deus consiste em que os homens, por Cristo, Verbo encarnado, tenham acesso ao Pai (Ef 2, 18) no Espírito e se tornem participantes da natureza divina (2 Pe 1, 4). Este desígnio, expresso em termos de relações interpessoais, inclui os três principais mistérios do cristianismo: a Trindade, a encarnação e a graça.
Depois de afirmar o plano e o objecto da revelação, o concílio precisa a sua natureza. Deus, na superabundância do seu amor, sai do seu mistério. Deus rompe o silêncio: dirige-se ao homem, interpela-o e inicia com ele um diálogo de amizade, como fez com Moisés (Ex 33, 11) e com os apóstolos (Jo 15, 14-15).
Deus conversa com os homens para convidá-los à comunhão consigo e para recebê-los na sua companhia (Baruc 3, 38). Pela encarnação, Deus entra na existência humana, vive com os homens. Jesus Cristo é a sabedoria de Deus que baixou à terra e relacionou-se com os homens, falou-lhes.
Deus falou à humanidade pela palavra. O nosso Deus é o Deus da palavra: fala a Abraão, a Moisés, aos profetas, por meio deles, ao povo. Por Cristo, Deus fala aos apóstolos e nos fala, porque nele nos fala o Filho em pessoa. É uma palavra de amizade: procede do amor, cresce na amizade e realiza uma obra de amor. Deus entra em comunicação com o homem, sua criatura, para estreitar com ele laços de amizade e para associá-lo à sua vida íntima. A revelação quer introduzir o homem na sociedade de amor que é a Trindade.
O homem pode comunicar-se com outro homem de múltiplas formas (gestos, acções, palavras, imagens... Assim também Deus pode comunicar-se com o homem. A revelação revela-nos a forma adoptada por Deus para falar à humanidade. Deus põe-se em comunicação com o homem pelas vias da encarnação e da história.
O concílio afirma que a revelação realiza-se mediante a conexão íntima de gestos e palavras. Pela palavra temos de entender as acções salvíficas de Deus: umas realizadas directamente por Deus, outras pelos profetas, seus instrumentos. No AT: o êxodo, a formação do reino, o desterro, a restauração; no NT: as acções da vida de Cristo, especialmente os seus milagres, a sua morte e ressurreição. Palavras são as palavras de Moisés e dos profetas que interpretam as intervenções de Deus na história; são as palavras de Cristo que declaram o sentido das suas acções; são as palavras dos apóstolos, testemunhas e intérpretes autorizados da vida de Cristo. As obras e palavras estão em estreita dependência e para serviço mútuo. O Deus que se revela é um Deus que entre na história e nela se revela como pessoa que opera a salvação do seu povo > libertação. Estas obras corroboram, isto é, apoiam, confirmam, atestam a doutrina e a realidade profunda, misteriosa, escondida nas obras e significada nas palavras. As palavras proclamam as obras e esclarecem o mistério contido nelas. Vejamos o que se passa no Êxodo: sem a palavra de Moisés que, em nome de Deus, interpreta para Israel esta saída como libertação tendo em vista uma aliança, o acontecimento não estaria carregado de plenitude de sentido que constitui o fundamento da religião de Israel. Os acontecimentos estão cheios de inteligibilidade religiosa e as palavras têm a missão de proclamá-la e esclarecê-la.
Ao insistir nas obras e nas palavras como elementos constittutivos da revelação, o concílio quer sublinhar o carácter histórico e sacramental da revelação: os acontecimentos iluminados pela palavra dos profetas, de Cristo e dos apóstolos. O carácter histórico da revelação aparece na acção mesma de Deus que sai do seu mistério e entra na história. O carácter sacramental da revelação aparece na compenetração e ajuda mútua de palavras e obras. Deus realiza o acontecimento de salvação e explica o seu significado. Opera e comenta a sua acção.
Por esta revelação nos manifesta, em Cristo, a verdade profunda acerca de Deus e do homem. Cristo diz-nos quem é Deus: o Pai que nos criou e nos ama como filhos; manifesta-nos também o Filho e palavra, que nos chama e convida a uma comunhão de vida com a Trindade, e o Espírito, que vivifica e santifica. Em Cristo, se nos revela também a verdade acerca do homem, isto é, que foi chamado e escolhido por Deus desde antes a criação do mundo para ser, em Cristo, filho adoptivo do Pai.
Cristo é o mediador e a plenitude da revelação. É a via escolhida por Deus para dar-nos a conhecer quem é Ele (Pai, Filho e o Espírito) e o que somos nós (pecadores chamados à vida). Cristo é a plenitude da revelação, isto é, é o Deus que revela e o Deus revelado, o autor e o objecto da revelação, o que revela o mistério e o mistério mesmo em pessoa (Jo 14, 6; 2 Cor 4, 4-6; Ef 1, 3-14; Col 1, 26-27). É em pessoa a verdade que anuncia e fala. Esta verdade que nele resplandece pede a adesão do nosso espírito: quer invadir a nossa vida para transformá-la e transformar-mo-nos em Cristo; tende, pela união com Cristo, à comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito.
(Preparação da revelação evangélica)
3. Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na obra da criação e, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se pessoalmente, desde o princípio, aos nossos primeiros pais. Porém, depois da sua queda, tendo-lhes prometido a redenção, deu-lhes a esperança da salvação e cuidou continuamente do género humano, a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática das boas obras, procuram a salvação. A seu tempo chamou Abraão, para fazer dele um grande povo, povo esse que, depois dos Patriarcas ensinou por meio de Moisés e dos Profetas, para que o reconhecessem como único Deus, vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e para que esperassem o Salvador prometido. Desta forma, preparou Deus, através dos séculos, o caminho do Evangelho.
A primeira manifestação de Deus deu-se na Criação. Deus revelou-se a nossos primeiros pais pela revelação histórica e pessoal.
Etapas da revelação veterotestamentária: promessa aos nossos primeiros pais; vocação de Abraão; instrução do povo eleito por Moisés e pelos profetas.
Depois da queda dos nossos primeiros pais (pecado original), Deus levantou-os pela promessa da redenção. Com a promessa começa a história da salvação, na qual todos são incluídos, ninguém fica excluído. O Povo de Israel é o depositário desta promessa.
Deus chama Abraão para o fazer pai de um grande povo, que é instruído através de Moisés e dos profetas. Deus forma o Seu povo para que reconheça n' Ele o Deus vivo e verdadeiro, o Pai que cuida dos seus filhos e para que espere o salvador prometido.
O texto do Concílio apresenta-nos a revelação como sábia pedagogia que forma e prepara o povo.
Arnaldo Vareiro
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
QUARESMA EM "LOUVOR PERENE"
Temos vindo nos últimos números do nosso jornal a olhar para S. João Maria Vianney, modelo de vida sacerdotal, em várias facetas da sua vida. Neste mês, e em consonância com a proposta do nosso Arcebispo, convido-vos a olharmos para o Cura d’ Ars e a sua relação íntima e profunda com Jesus-Eucaristia.
S. João Maria Vianney “Não quereria ser pároco, mas estou muito contente de ser sacerdote para poder celebrar Missa” – disse o P. Vianney numa ocasião. Passava longos momentos ajoelhado, de mãos juntos e os olhos fixos no sacrário da pobre freguesia de Ars.
Em 1827, um pequeno estudante, que mais tarde chegou ao sacerdócio, ajudava-o como menino de coro e deixou este testemunho: “Estava admirado de o ver permanecer cinco minutos depois da consagração com as mãos e os olhos levantados, numa espécie de êxtase. Nós dizíamos, os meus companheiros e eu, que ele via a Deus. Antes da comunhão, parava alguns momentos; parecia conversar com Deus.” Muitos eram os que acorriam a Ars somente para o admirarem durante a celebração da Santa Missa, pois diziam que parecia-lhes ver “um anjo no altar”. Chorava durante quase toda a Missa. O exterior reflectia o que se passava no mais íntimo da alma: não fazia gestos exagerados ou inúteis; os seus olhos oravam ou contemplavam, ora elevados, ora baixos; as suas mãos suplicavam postas ou estendidas. Era uma pregação muda de uma eloquência sublime! Tudo nele respirava adoração!
Certa manhã, atormentava-o de tal modo o pensamento do inferno e o medo de perder a Deus para sempre, que gemia interiormente: “Ao menos deixai-me a Virgem Santíssima.” Durante uma Missa de Natal, à meia-noite, cantou-se depois da elevação um hino bastante comprido. Segundo o rito lionês, o celebrante devia, a partir de certo momento, sustentar a hóstia consagrada sobre o cálice até ao Pai Nosso. Então, conta uma testemunha, “vi como olhava aquela hóstia, ora com lágrimas, ora com um sorriso. Parecia falar-lhe; depois vinham as lágrimas e em seguida os sorrisos.” Depois da Missa, pedimos-lhe desculpa na sacristia por o termos feito esperar tanto tempo. “O tempo passou sem que me desse conta”, foi a resposta.
- Mas, Sr. Cura, que fazia quando tinha a hóstia consagrada nas mãos? Parecia estar muito comovido.
- Com efeito, ocorreu-me uma ideia feliz – respondeu o santo - Dizia a Nosso Senhor: Se soubesse que hei-de ter a desgraça de não Vos ver na Eternidade, visto que agora vos tenho nas mãos, não Vos largaria mais!”
Celebrar a Eucaristia em Igreja, Povo Sacerdotal e reunido pela Palavra de Deus, é celebrar a aliança entre o Esposo, Jesus Cristo, e a Sua Esposa, a Igreja. Saibamos neste tempo da Quaresma, a exemplo do Santo Cura de Ars, a não largarmos Jesus, Pão vivo descido do céu, mas a permanecermos em comunhão vital com Ele, que, cada dia na Eucaristia, cria e recria a Sua Esposa e a une consigo. A Quaresma deste Ano Sacerdotal seja um “Louvor Perene”, um “perder-se” no Esposo, que faz circular o Seu Sangue, a Vida Nova, em cada um de nós!
O CAMINHO DA QUARESMA
A palavra Quaresma (Quadragesima) quer dizer quarenta dias. Ao longo deste período revivemos os quarenta dias de Cristo no deserto e os quarenta anos de peregrinação dos israelitas pelo deserto até chegarem à terra prometida.
Com efeito, durante quarenta dias, Jesus prepara-se no deserto para o seu imediato ministério público, enfrentando as tentações e renovando a relação íntima com o Pai. Durante quarenta anos, o povo conduzido por Moisés, depois de sair do Egipto, a terra da escravidão, sofreu fome e sede; às vezes, sucumbiu face ao desânimo mas, antes de mais, viveu a experiência única da ternura de Deus (Ex 12-40).
É exactamente esta experiência de intimidade com Deus que todos os crentes devem reviver ao aproximar-se a Páscoa, para chegar com “a alegria de um coração purificado” à renovação das promessas realizadas no Baptismo, que é a aliança pessoal de cada cristão, e se encontrar profundamente com Cristo morto e ressuscitado na Eucaristia.
A nossa Arquidiocese de Braga continua a viver o seu programa pastoral “Tomar conta da Palavra que toma conta de nós”. Neste ano somos convidados a “Acolher a Palavra”. A Quaresma de 2010 deve ser para o povo de Deus um desafio exigente que o sensibilizará para escutar e acolher melhor o chamamento do Senhor, que nos convida à conversão.
Antigamente, no começo da Quaresma, a Igreja insistia mais nas modalidades da penitência; hoje, antes de mais, assinala-nos o seu objectivo me significado.
Mais do que o como fazer penitência, é importante saber o porquê, para que esta não se transforme numa prática superficial que não produz os frutos de conversão desejados.
A penitência da Quaresma orienta-se para Deus, a quem a honra, e para os irmãos, a quem consola. Nela se expressa com grande força a opção pessoal do discípulo de Jesus pelo duplo mandamento do amor: amor aos irmãos porque amamos o Pai misericordioso e cheio de ternura.
Mais do que uma ascese artificial e um mero cumprimento de preceitos, a Quaresma propõe a todos os homens que se esforcem por rever leal e sinceramente a sua maneira de ser, por descobrir onde se encontram no projecto que Deus tem para eles, o que é que querem e o que perceberam da vida cristã. Estes quarenta dias vividos com Israel no deserto, com Moisés, Elias e, sobretudo, com Cristo, são um período profundamente espiritual. Sabemos que devemos enfrentar a tentação, mas também sabemos que somos capazes de vencer com Cristo. Por outras palavras: realismo salutar e objectividade para nos reconhecermos pecadores, mas também esperanças renovadas diante da luz nova. Coragem para mudar, assim como para esperar…