quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

QUARESMA EM "LOUVOR PERENE"

No passado dia 2 de Fevereiro, o Senhor Arcebispo Primaz dirigiu à Igreja de Braga a Nota Pastoral “Louvor Perene”, querendo marcar as comemorações dos 300 anos do Lausperene na Arquidiocese, que, segundo dados históricos, começou no tempo do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, concedido pelo Papa Clemente XI em 12 de Outubro de 1709. Foi concedido primeiramente apenas à cidade de Braga, estendendo-se a toda a Arquidiocese aquando do 3º Congresso do Apostolado da Oração, realizado em Braga de 15 a 19 de Maio de 1957. Celebrar esta efeméride em pleno Ano Sacerdotal, é, refere D. Jorge Ortiga, “um dom de Deus, uma graça especial que merece a atenção de todos: pastores e fiéis. Somos convidados a dar graças pela imensa riqueza que, ao longo de três séculos, a Igreja Arquidiocesana recebeu com a sucessiva e contínua celebração do Lausperene. Mas somos também convidados a pensar que a Eucaristia é para o Sacerdócio e o Sacerdócio para a Eucaristia. Dois mistérios, dois sacramentos que tiveram a sua origem na Quinta-Feira Santa, no Cenáculo em Jerusalém. Jesus, Único e Eterno Sacerdote, quis perpetuar a Sua acção santificadora e salvífica através dos sacerdotes em Eucaristia.”
Temos vindo nos últimos números do nosso jornal a olhar para S. João Maria Vianney, modelo de vida sacerdotal, em várias facetas da sua vida. Neste mês, e em consonância com a proposta do nosso Arcebispo, convido-vos a olharmos para o Cura d’ Ars e a sua relação íntima e profunda com Jesus-Eucaristia.
S. João Maria Vianney “Não quereria ser pároco, mas estou muito contente de ser sacerdote para poder celebrar Missa” – disse o P. Vianney numa ocasião. Passava longos momentos ajoelhado, de mãos juntos e os olhos fixos no sacrário da pobre freguesia de Ars.
Em 1827, um pequeno estudante, que mais tarde chegou ao sacerdócio, ajudava-o como menino de coro e deixou este testemunho: “Estava admirado de o ver permanecer cinco minutos depois da consagração com as mãos e os olhos levantados, numa espécie de êxtase. Nós dizíamos, os meus companheiros e eu, que ele via a Deus. Antes da comunhão, parava alguns momentos; parecia conversar com Deus.” Muitos eram os que acorriam a Ars somente para o admirarem durante a celebração da Santa Missa, pois diziam que parecia-lhes ver “um anjo no altar”. Chorava durante quase toda a Missa. O exterior reflectia o que se passava no mais íntimo da alma: não fazia gestos exagerados ou inúteis; os seus olhos oravam ou contemplavam, ora elevados, ora baixos; as suas mãos suplicavam postas ou estendidas. Era uma pregação muda de uma eloquência sublime! Tudo nele respirava adoração!
Certa manhã, atormentava-o de tal modo o pensamento do inferno e o medo de perder a Deus para sempre, que gemia interiormente: “Ao menos deixai-me a Virgem Santíssima.” Durante uma Missa de Natal, à meia-noite, cantou-se depois da elevação um hino bastante comprido. Segundo o rito lionês, o celebrante devia, a partir de certo momento, sustentar a hóstia consagrada sobre o cálice até ao Pai Nosso. Então, conta uma testemunha, “vi como olhava aquela hóstia, ora com lágrimas, ora com um sorriso. Parecia falar-lhe; depois vinham as lágrimas e em seguida os sorrisos.” Depois da Missa, pedimos-lhe desculpa na sacristia por o termos feito esperar tanto tempo. “O tempo passou sem que me desse conta”, foi a resposta.
- Mas, Sr. Cura, que fazia quando tinha a hóstia consagrada nas mãos? Parecia estar muito comovido.
- Com efeito, ocorreu-me uma ideia feliz – respondeu o santo - Dizia a Nosso Senhor: Se soubesse que hei-de ter a desgraça de não Vos ver na Eternidade, visto que agora vos tenho nas mãos, não Vos largaria mais!”
Celebrar a Eucaristia em Igreja, Povo Sacerdotal e reunido pela Palavra de Deus, é celebrar a aliança entre o Esposo, Jesus Cristo, e a Sua Esposa, a Igreja. Saibamos neste tempo da Quaresma, a exemplo do Santo Cura de Ars, a não largarmos Jesus, Pão vivo descido do céu, mas a permanecermos em comunhão vital com Ele, que, cada dia na Eucaristia, cria e recria a Sua Esposa e a une consigo. A Quaresma deste Ano Sacerdotal seja um “Louvor Perene”, um “perder-se” no Esposo, que faz circular o Seu Sangue, a Vida Nova, em cada um de nós!
Arnaldo Vareiro

O CAMINHO DA QUARESMA

A celebração da Páscoa, como qualquer “tempo forte” da liturgia, é precedida por uma preparação intensa de conversão, chamada QUARESMA.
A palavra Quaresma (Quadragesima) quer dizer quarenta dias. Ao longo deste período revivemos os quarenta dias de Cristo no deserto e os quarenta anos de peregrinação dos israelitas pelo deserto até chegarem à terra prometida.
Com efeito, durante quarenta dias, Jesus prepara-se no deserto para o seu imediato ministério público, enfrentando as tentações e renovando a relação íntima com o Pai. Durante quarenta anos, o povo conduzido por Moisés, depois de sair do Egipto, a terra da escravidão, sofreu fome e sede; às vezes, sucumbiu face ao desânimo mas, antes de mais, viveu a experiência única da ternura de Deus (Ex 12-40).
É exactamente esta experiência de intimidade com Deus que todos os crentes devem reviver ao aproximar-se a Páscoa, para chegar com “a alegria de um coração purificado” à renovação das promessas realizadas no Baptismo, que é a aliança pessoal de cada cristão, e se encontrar profundamente com Cristo morto e ressuscitado na Eucaristia.
A nossa Arquidiocese de Braga continua a viver o seu programa pastoral “Tomar conta da Palavra que toma conta de nós”. Neste ano somos convidados a “Acolher a Palavra”. A Quaresma de 2010 deve ser para o povo de Deus um desafio exigente que o sensibilizará para escutar e acolher melhor o chamamento do Senhor, que nos convida à conversão.
Antigamente, no começo da Quaresma, a Igreja insistia mais nas modalidades da penitência; hoje, antes de mais, assinala-nos o seu objectivo me significado.
Mais do que o como fazer penitência, é importante saber o porquê, para que esta não se transforme numa prática superficial que não produz os frutos de conversão desejados.
A penitência da Quaresma orienta-se para Deus, a quem a honra, e para os irmãos, a quem consola. Nela se expressa com grande força a opção pessoal do discípulo de Jesus pelo duplo mandamento do amor: amor aos irmãos porque amamos o Pai misericordioso e cheio de ternura.
Mais do que uma ascese artificial e um mero cumprimento de preceitos, a Quaresma propõe a todos os homens que se esforcem por rever leal e sinceramente a sua maneira de ser, por descobrir onde se encontram no projecto que Deus tem para eles, o que é que querem e o que perceberam da vida cristã. Estes quarenta dias vividos com Israel no deserto, com Moisés, Elias e, sobretudo, com Cristo, são um período profundamente espiritual. Sabemos que devemos enfrentar a tentação, mas também sabemos que somos capazes de vencer com Cristo. Por outras palavras: realismo salutar e objectividade para nos reconhecermos pecadores, mas também esperanças renovadas diante da luz nova. Coragem para mudar, assim como para esperar…
Arnaldo Vareiro

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UM SANTO JUNTO A OUTRO SANTO

O P. Vianney celebrou a sua primeira Missa na capela do Seminário Maior, onde, no dia anterior, tinha recebido a ordenação sacerdotal. Era uma segunda-feira, 14 de Agosto de 1815. os Vigários Gerais tinham-no nomeado para coadjutor da paróquia de Ecully, onde ficaria com o seu velho mestre, o Padre Balley. Assim, o filho adoptivo ficaria junto do pai. Seria o seu auxiliar no meio de tantos trabalhos e quem lhe fecharia os olhos.

Os paroquianos de Ecully participaram da alegria do seu pastor. Diziam: “O padre Vianney edificou-nos muito quando esteve entre nós. Quanto mais agora que é sacerdote!” Com efeito, logo depositaram nele toda a confiança.

O neo-sacerdote recebeu as faculdades necessárias para confessar, depois de muitos meses após a nomeação de coadjutor. É curioso notarmos que o primeiro penitente que se lhe prostrou aos pés foi o seu próprio confessor, o P. Balley em pessoa.

O primeiro acto ministerial do P. Vianney data de 27 de Agosto de 1815 – um baptizado. Desde que souberam que ele estava “aprovado” pela Cúria Arquiepiscopal, o seu confessionário foi assediado pelos doentes espirituais que não procuravam outro. Isto roubava-lhe muito tempo, fazendo-o negligenciar as próprias refeições.

Na catequese, explicava cuidadosamente o catecismo, tornando-se pequeno com os pequenos. No púlpito de Ecully era breve mas claro, não receando dizer as verdades mais duras e fustigar certos vícios. Pregava a pureza dos costumes e a perfeição da vida cristã. O P. Vianney era o primeiro a dar o exemplo. Era muito simples e muito franco. Orava e mortificava-se para dominar o mal, o pecado. Os seus recursos pessoais passaram para as mãos dos pobres, dava tudo o que tinha.

Deus, porém, não colocara o P. Vianney em Ecully somente para exercer o ministério paroquial; mandara-o para uma escola de santidade. O P. Balley era um sacerdote muito mortificado. Entre ele e o coadjutor estabeleceu-se logo uma aterradora emulação de austeridade; era, no dizer de um sacerdote da época, “um santo junto a outro santo!” Algum tempo depois, o P. Vianney fez esta humilde declaração: “Terminaria por saber um pouco mais se tivesse a dita de viver sempre com o P. Balley. Ninguém como ele fazia ver até que ponto a alma pode desenvencilhar-se dos sentimentos terrenos e o homem assemelhar-se aos anjos. Para se ter desejo de amar a Deus bastava ouvi-lo dizer: Meu Deus, eu vos amo de todo o coração.”

Estes dois sacerdotes levavam uma vida austera, fazendo refeições muito pobres, usando cilício, a tal ponto de o Vigário Geral afirmar: “Felizes de vós, povo de Ecully, por terdes padres que deste modo fazem penitência por vós!” Levavam uma vida em comum marcada pela amizade que os unia e também pelo elevado grau de piedade e de santidade.

Decorria o ano de 1816 e as primeiras semanas de 1817 quando o P. Balley, não passando dos 65 anos, envelhecido antes do tempo e caminhando para a eternidade, cai no leito devido a uma úlcera na perna, da qual nunca mais sarou. Dali em diante quase não tomou parte no ministério paroquial. Durante esse período cada vez mais penoso, de dia e de noite, substituía-o em quase tudo o abnegado coadjutor. Sofria sem se queixar. A 17 de Dezembro, depois de se ter confessado com o seu filho predilecto e depois de ter recebido a Sagrada Comunhão e a Santa Unção, cheio de méritos adormeceu no Senhor o venerado pastor de Ecully.

Conta-se que, depois de administrada a santa unção, os paroquianos retiraram-se, ficando a sós pároco e coadjutor. O moribundo deu ao P. Vianney os útlimos conselhos e recomendou-se às suas orações. Depois, retirando sob o travesseiro os instrumentos de penitência, murmurou-lhe ao ouvido: “Toma, meu filho, esconde isso; se os encontrarem depois da minha morte, julgarão ter eu expiado suficientemente os meus pecados, deixando-me no purgatório até ao fim do mundo.” As disciplinas e os cilícios do P. Balley, como veremos nos próximos números, não ficaram sem uso. O P. Vianney chorou-o como a um pai.

Pouco depois da morte do P. Balley, os paroquianos de Ecully apresentaram à Cúria de Lião um pedido para que o P. Vianney ficasse como pároco, mas a petição não logrou êxito, pois o interessado não quis aceitar como veio a confirmar mais tarde: “Não teria gostado de ser pároco de Ecully, a paróquia era demasiado importante.” Entretanto, o P. Tripier tomou o lugar do P. Balley, continuando o P. Vianney como coadjutor, mas não por muito tempo.

Em 21 de Janeiro de 1818 ficou vacante uma pequena capelania no departamento de Ains, pois o seu capleão, um jovem sacerdote de 27 anos, acabara de falecer tuberculoso, apenas contando 23 dias de trabalho no sagrado ministério. Ars estava vacante. Era uma aldeia pequena e pobre com 230 habitantes – valeria a pena mandar para lá um sacerdote? Uma intervenção pessoal da castelã do lugar, a menina Ana des Garets, que se empenhava em considerar a sua aldeia como uma verdadeira paróquia, apressou os Vigários Gerais a decidirem-se.

Nos princípios de Fevereiro, o P. João Maria Vianney, coadjutor de Ecully, foi avisado que a capela e a aldeia de Ars estavam confiadas ao seu zelo. Foi ter com Mons. Courbon que, ao assinar a provisão, lhe disse: “Não há muito amor de Deus naquela paróquia. Vossa Reverência procurará introduzi-lo.”

Em 3 de Fevereiro de 1818, o P. Vianney escreveu em Ecully o último acto do seu ministério. No dia 9, pela manhã, pôs-se a caminho de Ars.


Arnaldo Vareiro

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ensina-nos o segredo, Ir. Fernanda!

Quando alguém escreve está a “defender a solidão em que está” (María Zambrano); é uma acção que brota somente de um isolamento afectivo, mas de um isolamento comunicável. Escrever é o contrário de falar; fala-se por necessidade momentânea imediata, fazêmo-nos prisioneiros do que pronunciámos, enquanto que no escrever se acha libertação e perdurabilidade. As grandes verdades não costumam dizer-se a falar. A verdade do que se passa no secreto seio do tempo é o silêncio das vidas, e que não pode dizer-se! A vida, a nossa vida, não se diz, escreve-se! A morte, essa sim, diz a vida; desvela o segredo da vida!

Faz hoje, 5 de Janeiro, um ano que a morte desvendou-me e contou-me um segredo: a vida da Ir. Maria Fernanda Sousa Fernandes! É impossível reduzi-lo a este espaço, mas não o poderei calar jamais porque algo me compele e a ordem que me é dada vem de fora. E o segredo tem duas faces: uma vida da música do coração e uma vida com o Amor no coração.

Grande era a paixão da Ir. Fernanda pela música, que lhe brotava com leveza do seu simples e grande coração, esse “espaço vital”, que vibra com os acordes doces da alegria, da bondade, da ternura, da simplicidade, da amizade. Todos eles compuseram essa sinfonia que durante 37 anos ressoou no coração daqueles que privaram com a Ir. Fernanda: a família, os amigos, os seus alunos, os membros da Obra do Amor Divino e tantos que com ela se cruzaram. Ela sabia que “o coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões se abre” (María Zambrano). Este abrir-se é a sua maior nobreza, é o sinal da mais pura generosidade; torna-se activo, torna-se interioridade aberta, que arrasta todo o ser para esta dinâmica de pura vibração, de vida. Vida é esta incapacidade de um órgão desligar-se de outro, um elemento de outro.

O coração da Ir. Fernanda continua vivo porque passivo e dependente do Amor de Deus. Aos 34 anos de vida, ela quis, na Obra do Amor Divino, que o seu profundo fosse um espaço diferente, um espaço criado pela acção de algo não feito para estar no espaço e que o cria para que alguém que vive no espaço e anda por ele possa contactá-lo. O profundo é uma chamada amorosa. O coração é esse trabalhador constante do “conhece-te a ti mesmo” (Sócrates) diante do Deus Amor.

Foi no dia 6 de Agosto de 2007, Festa da Transfiguração do Senhor, que a Ir. Fernanda quis montar a “sua tenda” com Cristo, sabendo que a Glória pedia o caminho da cruz. Os últimos dias da sua vida foi um autêntico caminho de dor, mas uma dor co-redentora porque unida à paixão de Cristo. Que belo segredo nos contou a vida, sobretudo da doença, da Ir. Fernanda: transportar a dor com sentido e no Sentido! Como encarnou e enraizou no seu coração a espiritualidade da Obra do Amor Divino: oferecer-se continuamente no altar da vida quotidiana, amando a Deus e os irmãos!

Trazia de tal modo Deus no coração, que “estou de que nem a morte... a separou do amor de Deus (Rom, 38-39). Deus a acompanhou na morte, notada pela serenidade e total passividade n'Ele que no seu rosto transparecia. “Senhor, nas tuas mãos entrego a minha vida, o meu ser, a minha pessoa.” Foi com esta confiança que a Ir. Fernanda atravessou esta última porta e foi acolhida pelo Deus amor, criador amoroso. Deus fechou por ela a porta da vida terrena e da morte ao abrir os seus braços para acolher o seu ser para a ressurreição, para a comunhão dos bem-aventurados, porque a sua vida foi uma permanente configuração ao amor de Deus.

Hoje, às 17 horas, na igreja paroquial de Travassos (Póvoa de Lanhoso) nos reuniremos como assembleia de irmãos que creem no Deus que salva por amor para Lhe darmos graças por nos ter contado este terno e belo segredo que foi a tua vida, que foste tu!

Um dia nos encontraremos contigo e, em Cristo, viveremos a grande festa da Ressurreição; até lá, ensina-nos a fazer da nossa vida uma suave melodia para Deus e para os irmãos!


Arnaldo Vareiro

(Publicado no jornal "Diário do Minho" em 5.1.2010)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Para o fim de ano

Senhor, mais um ano de vida,
mais um ano de história,
para a eternidade!

Mais um ano de bênçãos e graças
que nos levam a louvar-Vos
por todos os vossos benefícios recebidos.

Obrigado, Senhor, 
pela minha família,
pelos meus pais.

Obrigado Senhor, pelo dom
da vossa Presença Eucarística,
pelo Evangelho, a Igreja,
o Papa, os Sacerdotes 
e os Consagrados.

Obrigado, Senhor, pelo dom
da educação, pela cultura,
pelo progresso da ciência
e do pensamento humano.
Obrigado, Senhor, por tudo 
o que de bom nos aconteceu durante o ano.

Recebei também um acto
de "arrependimento" pelos
pecados que poderia ter evitado
e não evitei:
Pai nosso...

Votos de um 2010 abençoado, vivido na Plenitude!
Arnaldo Vareiro

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Maria, mulher rodeada pelo amor redentor e santificador de Deus

Celebrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria é fazer memória do ano de 1854, quando o Papa Pio IX proclamou, na Bula Ineffabilis Deus, o dogma da Imaculada Conceição, declarando-o solenemente: “(...) pronunciamos e definimos que a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha de pecado original no primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em atenção aos méritos de Jesus Cristo Salvador do género humano, está revelada por Deus; e, por conseguinte, há de ser acreditada firme e constantemente por todos os fiéis”.

Nesta proclamação destacam-se dois aspectos: o da eleição eterna de Maria para Mãe do Filho Unigénito de Deus e o amor divino de predilecção que a cumulou de graça, que é a plenitude da inocência e santidade.

A santidade em Maria é isenção do pecado original e é comunhão esponsal com Deus. Maria possui os dons de Deus, desde o começo, de maneira incomparável. É Deus o início de todo o ser espiritual, é Ele quem rodeia a vida do Homem com um amor redentor, com uma fidelidade amorosa. Em Maria não é compatível o pecado com a sua santidade. Ela é a beleza imaculada, a Igreja santa virgem e mãe, a concretização pessoal da Igreja.

Entre o Antigo e o Novo Testamentos há uma relação de promessa-realização. Em Maria, a Antiga e a Nova Alianças são uma só realidade na sua resposta a Deus, uma resposta pura. Em Maria falta a oposição entre o ser de Deus e o não ser do homem. Ela é a toda entregue a Deus!

Maria é toda bela, isenta do pecado original. O que é o pecado original? É a recusa da graça, é a orientação para o mal, é a orientação para o pecado em vez da graça. É uma necessidade inevitável de pecar. É não viver no dinamismo da graça; se o Homem vivesse o dinamismo da graça desenvolveria as suas capacidades em comunhão com Deus.

O dogma da Imaculada destaca, em Maria, a capacidade radical de diálogo com Deus. Deus concedeu-lhe o privilégio de ser imaculada em vista de uma vida santa, confirmada pela missão de Maria na História da Salvação: ser a Mãe de Seu Filho, a própria Santidade! Maria começa a existir numa situação de tal proximidade com Jesus que é livre de toda a determinação no mal.

A Humanidade reencontra, em Maria, a possibilidade de prosseguir a marcha radical projectada por Deus no seu desígnio eterno de salvação. Nós, cada um de nós, somos membros desta Humanidade e dentro de cada um de nós há uma realidade transcendente que não pode ser contaminada. O divino, Deus, habita em nós. Maria é exemplo desta habitação de Deus e, por isso, devemos alegrar-mo-nos por um ser humano nos poder ensinar o caminho do divino, da plenitude que há em nós.

Deus deu-se-nos totalmente. Celebrar Maria é descobrir nela o que descobrimos em Jesus: a absoluta presença de Deus num ser humano. Em Maria, descobrimos que Deus é encarnação. Ela é Imaculada porque Deus está nela e este é o dom que Deus concede a todos os seres. Deus actua sempre em nós por pura graça, antes de o merecermos.

O tempo de Natal que vivemos convida-nos a sentir e a experimentar mais intensamente esta presença de Deus. Maria soube ser tabernáculo, soube acolher Deus! É tempo de, com a Senhora Imaculada do Sameiro, rodeada pelo amor redentor e santificador de Deus, descobrir a “pérola” preciosa que está dentro de nós. A Senhora diz-nos: “Deus está em ti, Deus faz (é) parte de ti, que não deves nem podes ofuscar!” Se fizermos esta redescoberta todo o nosso ser será luz!

A Senhora do Sameiro nos ajude a sermos “arcas de Deus”, que transportam Deus, a Luz, para o nosso mundo, para o nosso país, para os que vivem à nossa volta envoltos em trevas e que, aos pés da Mãe, suplicam: “Ó Senhora Imaculada, ajoelhados a teus pés, confiamos mais uma vez!”


Arnaldo Vareiro

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

INTRODUÇÃO À DEI VERBUM


  1. Propósito do Ano Pastoral

No ano pastoral 2009-2010 seremos conduzidos pela mesma Palavra para a acolher e viver. «Acolhemos a Palavra» é o lema que nos acompanhará suscitando outras iniciativas. Importa que o acolher se oriente para o viver. Não pretendemos saborear egoisticamente um dom oferecido. Sabemos que tudo se projecta na vida e que o mundo necessita de ler a Palavra divina no quotidiano dos nossos pensamentos e acções. […] Este ano, temos como instrumento de trabalho essencial a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, um precioso documento introdutório para a leitura e escuta orante da Palavra de Deus.


  1. Introdução


    1. O Mundo da Palavra Humana

Deus falou na Sagrada Escritura por meio de homens e de maneira humana” (DV 12).

A história da Bíblia é história da Palavra de Deus aos homens. O AT e o NT descrevem-nos o itinerário da Palavra de Deus, a qual: cria o mundo (Gn 1), chama Abraão (Gn 12, 1ss), é dirigida aos profetas de Israel (Os 1,1; Jr 1,2 etc); assume o rosto de homem em Jesus de Nazaré (Jo 1, 1-14), “difunde-se, cresce e afirma-se com força” com a dilatação da Igreja apostólica (Act 6,7; 12,24; 19,20), regula o fim do universo e o início do novo mundo (Ap 19, 11-16; 21,1ss).

Ela é-nos sempre dada pela mediação humana.

Nisto manifestou-se a “admirável condescência de Deus e a sua inefável benignidade”: Com efeito, as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens” (DV 13)

Falando na linguagem dos homens, Deus ama-os e comunica-Se com eles, restituindo à linguagem humana a sua vericidade.


    1. Homo loquens”

Homem como animal que fala. A palavra introduz-nos no mundo humano. Falar, dar um nome, é de certa forma chamar à existência, tirar do nada.

O Adão bíblico penetra o ser de cada animal para dar-lhe um nome (cf. Gn 2, 19-20). A imposição do nome é um “acto da actividade ordenadora com a qual o homem se apodera espiritualmente das criaturas, objectivando-as diante de si”1.

Através da palavra, o homem passa a morar em si mesmo e de certa forma apropria-se de si. Ele procura a sua “autocompreensão”. Ele tem necessidade da disciplina da palavra para compreender-se e exprimir-se > mistério do ser-homem. A Palavra possibilita-lhe a comunicação com o outro. A palavra humana deveria exprimir uma “meta-física” das relações. Se as palavras não reflectirem e não colocarem em acção a dinamicidade criativa da relação, se as palavras não forem continuamente retomadas e actualizadas, elas estarão destinadas a degradar-se.


3. As três funções da Palavra

3.1. A palavra é “informação”


A palavra informa sobre factos, acontecimentos, coisas, geralmente enpregando um verbo no indicativo e na terceira pessoa. A linguagem das ciências exactas tem um formulário técnico e rigoroso. Na linguagem da didáctica prevalece a informação objectiva, mas todo o docente sabe muito bem que não pode prescindir daquela dimensão “formativa”. Na historiografia, o narrar não pode esgotar-se na simples apresentação dos factos, mas deverá ter uma certa dose subjectiva positiva: a palavra, que dá vida ao facto narrado, é “sua” (expressão) e convoca o leitor (apelo).


3.2. A palavra é “expressão”


Todo o homem que fala exprime-se, diz alguma coisa de si mesmo. Para comunicar-se e “informar”, o Homem deve, em certa medida, exprimir-se, ou seja, pôr em movimento o seu ser, correr o risco de saída de si, dispondo-se a um desmascaramento mínimo de sua interioridade (ex.: Abraão – sai de ti, vai para ti).


3.3. A palavra é “apelo”


A palavra humana, por sua natureza, busca o outro, tem paixão pelo outro, porque o homem é “relação”. Mais uma vez, o Adão bíblico é emblemático. Vejamos (Gn 2, 18). Adão dá um nome aos animais, mas não fala aos animais; ele busca um “tu”capaz de compreender e acolher a exigência interior de dar-se livremente. Vive para o encontro e a comunicação. Vive de encontro e comunicação. A palavra é o traço-de-união entre o “eu” e o “tu”, princípio original de toda a comunhão renovada.


4. A Palavra é criativa


A palavra, directa ou indirectamente, é sempre “apelo” a outro e exige, por sua natureza, uma resposta. A palavra não poderá deixar de provocar uma livre ressonância no “tu” que é intimamente tocado.

A palavra dá a cada um a revelação de si na relação recíproca com o outro. O homem faz-se “eu” no diálogo com um “tu”. Toda a palavra, proferida ou ouvida, tem a possibilidade de despertar. Na reciprocidade do “eu” e do “tu”, a palavra tende a criar a unidade do “nós”.


5. A linguagem da amizade e do amor


No encontro de amizade com o outro, o amigo não teme realizar o tremendo trabalho de libertar o sentido secreto do seu ser. E, depois de ter comunicado livremente o seu eu e de tê-lo oferecido ao livre acolhimento do outro, o amigo pode recomeçar o itinerário nunca definitvo da descoberta de si e do outro. Meias-palavras, alusões, silêncios, olhares, podem dizer muito mais do que muitas palavras exactíssimas.

Na palavra da amizade e do amor, “cada qual dá ao outro a hospitilidade essencial, o melhor de si”. Santo Agostinho diz: “Se não temos, nenhuma coisa neste mundo nos parecerá amável.”

O “eu” e o “tu”, tornados “nós na amizade, tocam o invisível e intocável “Tu” divino. Vejamos a experiência de Agostinho e sua mãe Mónica, evocada nas Confissões:

“Ao aproximar-se do dia em que devia sair desta vida, dia conhecido a Ti, desconhecido a nós, aconteceu, por obra Tua, creio, segundo os Teus misteriosos desígnios, que nos encontrássemos ela e eu sozinhos, apoiados numa janela que dava para o jardim da casa que nos hospedava, lá junto a Ostia Tiberina, longe dos rumores da multidão, procurando restaurar-nos da fadiga de uma longa viagem e tendo em vista a travessia do mar. conversávamos, pois, sozinhos com grande doçura (...). buscávamos entre nós a presença da Verdade, que és Tu, procurando entender qual seria a vida eterna dos santos (...). Abrimos avidamente a boca do coração ao jacto supremo da tua fonte, a fonte da vida (...). Elevando-nos com o mais ardente ímpeto de amor para o próprio Ser, percorremos todas as coisas corpóreas e o próprio céu (...). E ainda subindo acima de nós mesmos com a consideração, a exaltação, admiração das Tuas obras, chegamos às nossas almas e superamos também estas para alcançar a região da abundância inexaurível, onde apascentas Israel para sempre com a pastagem da verdade, e onde a vida é a Sabedoria (...). E enquanto falávamos dela e nos sentíamos atraídos por ela, pudemos captá-la um pouco com o ímpeto total da mente, e suspirando deixamos ali presas as primícias do espírito, para tornar a descer depois ao som vazio das nossas bocas, onde a palavra tem princípio e fim”2.


6. A Palavra amiga de Deus


A DV do II Concílio do Vaticano fala nestes termos da Revelação: “Em virtude desta Revelação, Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos e conversa com eles para os convidar e admitir a participarem da Sua própria vida.” (DV 2).

A Revelação de Deus é descrita com a categoria da palavra, mais ainda, do diálogo amigável. Para revelar-se, Deus falou aos homens e usou a linguagem humana da amizade com uma finalidade precisa que é a comunhão de vida.


7. A “Dei Verbum”, pórtico da Bíblia


Esta constituição foi promulgada oficialmente pelo Papa Paulo VI a 18 de Novembro de 1965. Esta constituição é logicamente o primeiro dos grandes documentos do Vaticano II.

Hoje, vamos ler a analisar o proémio (prólogo), quem na realidade introduz no conjunto da obra conciliar.


1. O sagrado Concílio, ouvindo com devoção a Palavra de Deus e proclamando-a desassombradamente, faz suas as palavras de S. João, quando diz: “anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós; o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com Seu Filho, Jesus Cristo” (1 Jo 1, 2-3). Por isso, seguindo as pisadas dos Concílios de Trento e Vaticano I, propõe-se expor a genuína doutrina sobre a Revelação Divina e a sua transmissão, para que o mundo inteiro, ouvindo a mensagem da salvação, acredite; acreditando, espere; esperando, ame.


  1. Dei Verbum. Estas duas palavras expressam na realidade todo o conteúdo. Deus, o Deus vivente, falou à humanidade. O termo “palavra de Deus” aplica-se primariamente à revelação, a esta primeira intervenção pela qual Deus sai do seu mistério, dirige-se à humanidade para desvelar-lhe os segredos da vida divina e comunicar-lhe o seu desígnio salvífico. Este é o feito, a acção que domina os dois testamentos e do qual a Igreja vive. Esta palavra de Deus, dirigida uma vez para sempre, perdura através dos séculos, sempre viva e actual, na Tradição e na Escritura.

A atitude da Igreja: escuta e proclama a palavra de Deus. Com fé, recebe a palavra do Senhor e, em virtude da sua missão profética que recebeu de Cristo, a proclama.

Este texto enuncia, em termos bíblicos, o essencial da constituição. A vida, que estava no Pai, junto do Pai, foi-nos manifestada. Deus saiu do seu mistério e, por mercê da humanidade de Cristo, João pode ver e ouvir o Verbo de vida. João anuncia o que viu e ouviu, a fim de que os homens, mediante a fé no seu testemunho, participem nesta experiência e, com ele, entrem em comunhão de vida com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. Epifania de Deus em Jesus Cristo, mediação do testemunho apostólico, a mediação de nós, catequistas, participação do homem na vida trinitária. O texto de João descreve todo o movimento da revelação: a vida em Deus, a vida que baixa até ao homem e, em Jesus Cristo, manifesta-se para levar à comunhão de vida, para tornar à fonte da vida – o Pai.


2. A segunda frase indica a finalidade da constituição. O Concílio propõe-se expôr a verdadeira doutrina acerca da Revelação e da sua transmissão numa linha de continuidade/ruptura.

1 G. Von Rad, Genesi, Paideia, Brescia, 1978, 2ª ed., p. 102.

2S. Agostinho, Confissões, 9, 10, 23-24.