terça-feira, 6 de outubro de 2009

NO COLO DA MÃE

João Maria Vianney veio ao mundo por volta da meia-noite a 8 de Maio de 1786, sendo baptizado neste mesmo dia. Era o quarto de seis irmãos com que Deus tinha abençoado a união de Mateus Vianney e Maria Beluse, casal de uma fé operante e esclarecida. Nas coisas de piedade foi um menino precoce, pois já com 18 meses, quando a família se reunia para a oração da noite, ajoelhava-se por sua própria inicativa entre os demais, juntando as mãozinhas com devoção. A sua mãe desde muito cedo falava-lhe no Menino Jesus, na Santíssima Virgem e no Anjo da Guarda, o que João ia guardando no coração, o qual Deus ia ornando com as suas graças! À medida que crescia em estatura ia crescendo nele também o desejo de saber mais sobre os mistérios de Jesus, ouvindo a mãe a contar a História Sagrada.

O pequeno João era muito alegre e brincalhão quando ia com o pai e os seus irmãos para o campo montados num burrico; era ele quem animava os jogos. Era um rapazinho de olhos azuis, cabelo escuro, tez morena e olhar vivo. Não era, ao que contrariamente se diz, uma criança singular, mas tinha um carácter muito vincado, chegando a ser muitas vezes de temperamento nervoso. Mas, desde cedo, o pequenito foi fazendo um esforço para adquirir a perfeita doçura; bem adivinhava que era esse o caminho que conduzia à santidade!

Desde pequeno nutria um forte e intenso amor às duas mães: à da terra e à do céu! João Maria possuía um lindo rosário, que tinha em grande estima. Gothon, uma das suas irmãs mais novas, achou-o também do seu agrado. Naturalmente qui-lo logo para si. Deu-se uma cena violenta entre irmão e irmã: gritos, empurrões e ameaças de pugilato. O pobre menino, todo amargurado, correu para junto da mãe. “Meu filho, dá o teu rosário à Gothon, - disse-lhe ela com voz branda, mas firme… sim, dá-lho por amor de Deus”. Imediatamente João Maria, soluçando, entregou o rosário, que assim mudou de dono. Para uma criança de quatro anos era um belo sacrifício! A fim de lhe enxugar as lágrimas, a mãe, em vez de carícias e mimos, deu-lhe uma pequena imagem de madeira que representava a Virgem Santíssima. Aquela tosca imagem tinha-a contemplado, muitas vezes, sobre a estufa na cozinha, desejoso de a possuir.

Agora era dele, toda dele! “Oh! Quanto eu amava aquela imagem – dir-nos-á 70 anos mais tarde. Não podia separar-me dela, nem de dia, nem de noite e não dormia tranquilo, sem tê-la na cama a meu lado… A Santíssima Virgem é a minha mais antiga afeição; amei-a mesmo antes de a conhecer”.

Ajoelhava-se com fervor ao toque do Angelus. Às vezes retirava-se para um canto, punha sobre uma cadeira a sua querida imagem e orava diante dela com grande recolhimento. A cada hora que soava persignava-se e rezava uma Avé-Maria.

Embora fosse privilegiado da graça divina, João Maria não deixava de fazer as suas traquinices. Uma tarde, quando contava uns 4 anos, João Maria saiu sem dizer nada a ninguém. A mãe deu pela falta. Chamou-o. Escutou. Nem resposta. Procurou ansiosa, no pátio, atrás dos montes de lenha e de feno. O menino não aparecia. Ele que sempre respondia à primeira chamada!

Enquanto se dirigia ao estábulo, onde se poderia ter escondido, a mãe pensava no poço escuro e profundo em que bebiam os animais.

Mas a quem haveria de descobrir num canto escuro, ajoelhado entre dois animais que ruminavam pachorrentamente? O inocente, que rezava com fervor, de mãos postas, diante da imagem da Virgem. Maria Vianney tomou-o nos braços e apertou-o ao coração. “Oh! Meu filho, tu estavas aqui – disse-lhe ela com voz trémula pelo pranto. Porque te escondeste para rezar? Tu bem sabes que nós rezamos juntos.”

O menino não via outra coisa senão a mágoa causada à mãe. “Perdão, mamã, eu não sabia… não farei mais! – gemia ele abandonando-se nos braços maternos.

Estamos no Mês de Outubro, mês dedicado tradicionalmente à Mãe do Rosário, à Mãe que quer que os seus filhos lhe ofereçam flores através da oração do rosário, revivendo os mistérios do Seu Filho Jesus. Como devemos imitar o pequenito João Maria neste amor e entrega total no colo da Mãe! Ela busca-nos sempre quando nos afastamos para rezar sozinhos, isto é, quando nos fechamos nas nossas angústias, nas situações menos risonhas da vida e pensamos que temos soluções mágicas para tudo; Ela vem-nos buscar quando estamos junto do “poço” da tristeza, do desespero, da infelicidade, da doença, pega-nos ao colo, afaga o nosso rosto, aperta-nos ao coração e coloca-nos de novo no Seu regaço para, nele, sentirmos a ternura e o amor de Deus. É a Mãe que nos ensina a aproximarmo-nos de Deus e a encontrá-Lo!

Mais tarde, quando felicitavam o Cura d’Ars por ter adquirido tão cedo o gosto pela oração e pelo altar, respondia com emoção e lágrimas: “Depois de Deus, devo à minha mãe. Era tão boa! A virtude passa facilmente do coração das mães para o coração dos filhos… Jamais um filho que teve a dita de ter uma boa mãe deveria vê-la, ou pensar nela sem chorar”.

S. João Maria Vianney propõe-nos, neste Ano Sacerdotal e neste Mês de Rosário, a estar mais perto do coração da Mãe para que Ela encha o nosso pobre coração das Suas virtudes, especialmente a da docilidade à Palavra de Deus que vem continuamente ao nosso encontro! Caminha connosco, Mãe!


Arnaldo Vareiro


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ACOLHER OS PEQUENINOS (Mc 10, 2-16)

O episódio parece insignificante. Contudo, encerra uma mensagem de grande importância para os seguidores de Jesus. Segundo o relato de Marcos, algumas pessoas levam a Jesus crianças que brincam por ali. A única coisa que procuram é que aquele homem de Deus as possa tocar para comunicar-lhes alguma da sua força e da sua vida. À primeira vista, era uma crença popular.
Os discípulos não gostam desta atitude e tentam impedir. Pretendem levantar um muro à volta de Jesus. Atribuem a si mesmos o poder de decidir quem pode ou não chegar a Jesus. Interpõem-se entre Jesus e os mais pequenos, frágeis e necessitados daquela sociedade. Em vez de facilitarem o acesso a Jesus, obstaculizam-no! 
Já se tinham esquecido do gesto de Jesus que, uns dias antes, tinha colocado no centro do grupo uma criança para que aprendessem bem que são os mais pequenos os que têm de ser o centro de atenção e cuidado dos Seus discípulos. Tinham-se já esquecido de como a tinha abraçado diante de todos, convidando-os a acolher os pequeninos em Seu nome e com o mesmo carinho.
Jesus indigna-se. Aquele comportamento dos Seus discípulos é intolerável. Enfadado, dá-lhes duas ordens: "Deixai vir a Mim as criancinhas. Não as impeçais." Quem lhes tinha ensinado a actuar de uma maneira tão contrária ao Seu Espírito? São, precisamente, os pequenos, débeis e indefesos, os primeiros que têm de ter aberto o acesso a Jesus. 
A razão é muito profunda pois obedece aos desígnios do Pai: "Dos que são como eles é o reino de Deus". No reino de Deus e no grupo de Jesus, os que molestam não são os pequenos, mas os grandes e poderosos, os que querem dominar e ser os primeiros.
O centro da sua comunidade não terá de estar ocupado por pessoas fortes e poderosas que se impõem aos outros a partir de cima. Na Sua comunidade necessita-se de homens e mulheres que procuram o último lugar para acolher, servir, abraçar e bendizer os mais débeis e necessitados.
O reino de Deus não se difunde a partir da imposição dos grandes mas desde o acolhimento e defesa dos pequeninos. Onde estes se convertem no centro da atenção e cuidado, aí está a chegar o reino de Deus, a sociedade humana que o Pai quer!

Arnaldo Vareiro 

sábado, 12 de setembro de 2009

RECONHECER A JESUS, O CRISTO

1. O episódio do evangelho deste Domingo ocupa um lugar central e decisivo no relato de Marcos. Há já algum tempo que os discípulos convivem com Jesus. É chegado o momento de se pronunciarem com clareza. A quem seguem? O que descobrem em Jesus? O que captam na Sua vida, na Sua mensagem e no Seu projecto?
2. Desde que se uniram a Ele, vivem interrogando-se sobre a Sua identidade. O que mais os surpreende é a autoridade com que fala, a força com que cura os enfermos e o amor com que oferece o perdão de Deus aos pecadores. Quem é este homem em quem sentem tão presente e tão próximo o Deus Amigo da vida e do perdão?
3. Entre as pessoas que não convivem com Jesus corre toda a espécie de rumores, mas a Jesus interessa-Lhe a posição dos seus discípulos: "E vós, quem dizeis que Eu sou?".
4. Não basta que entre eles haja opiniões diferentes mais ou menos acertadas. É fundamental que os que se comprometeram com a Sua causa, reconheçam o mistério que se encerra Nele. Se não é assim, quem manterá viva a Sua mensagem? O que será do Seu projecto do reino de Deus? Que destino terá aquele grupo que Ele está a pôr em marcha?
5. Mas a questão é vital também para os seus discípulos. Afecta-os radicalmente. Não é possível seguir Jesus de forma inconsciente e ligeira. Têm que conhecê-Lo cada vez mais na interioridade. Pedro, recolhendo as experiências que têm vivido com Ele até àquele momento, responde em nome de todos: "Tu és o Messias!". 
6. Todavia, a confissão de Pedro e limitada. Os discípulos ainda não conhecem a crucifixão de Jesus nas mãos dos seus adversários. Não podem nem suspeitar que será ressuscitado pelo Pai como Filho amado. Não conhecem experiências que lhes permitam captar tudo o que se encerra em Jesus. Somente seguindo-O de perto irão descobri-Lo com fé crescente.
7. Para os cristãos, é vital reconhecer e confessar cada vez com mais profundidade o mistério de Jesus o Cristo. Se ignoramos Cristo, a Igreja vive ignorando-se a si mesma. Se não O conhece, não pode conhecer o mais essencial e decisivo da sua tarefa e missão. Mas, para conhecer e confessar a Jesus Cristo não basta encher a nossa boca com títulos cristológicos admiráveis. É necessário segui-Lo de perto e colaborar com Ele dia a dia. Esta é a principal tarefa que temos de promover nos grupos e comunidades cristãs.

Arnaldo Vareiro

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

CURAR A NOSSA SURDEZ

1. Os profetas de Israel usavam com frequência a "surdez" como uma metáfora provocativa para falar do fechamento e da resistência do povo ao seu Deus. Israel "tem ouvidos mas não ouve" o que Deus lhe está a dizer! Por isso, um profeta chama todos à conversão com estas palavras: "Surdos, escutai e ouvi!".
2. Neste sentido, as curas dos surdos, narradas pelos evangelistas, podem ser lidas como "relatos de conversão" que nos convidam a deixarmo-nos curar por Jesus da surdez e resistências que nos impedem escutar a Sua chamada ao seguimento. Em concreto, Marcos oferece no seu relato matizes muito sugestivas para trabalhar esta conversão nas comunidades cristãs.
3. O surdo vive alheio a todos. Não parece ter consciência do seu estado. Não faz nada para se aproximar de quem o pode curar. Teve a sorte de uns amigos se interessarem por ele e levá-lo até Jesus. Assim deverá ser a comunidade cristã: um grupo de irmãos e irmãs que se ajudam mutuamente para viver à volta de Jesus, deixando-se curar por Ele!
4. A cura da surdez não é fácil. Jesus toma consigo o enfermo, retira-se para o lado e concentra-se nele. É necessário o recolhimento e a relação pessoal. Necessitamos nos nossos grupos cristãos de um clima que permita um contacto mais íntimo e vital dos crentes com Jesus. A fé em Jesus Cristo nasce e cresce nessa relação com Ele.
5. Jesus trabalha intensamente os ouvidos e a língua do enfermo, mas não basta. É necessário que o mudo colabore. Por isso, Jesus, depois de levantar os olhos ao céu, procurando que o Pai se associe ao seu trabalho libertador, grita ao enfermo a primeira palavra que tem de estremecer quem vive surdo a Jesus e ao Seu Evangelho: "Abre-te!". 
6. É urgente que nós cristãos escutemos também hoje esta chamada de Jesus. Não são momentos fáceis estes que atravessamos para a Sua Igreja! É-nos pedido que actuemos com lucidez e responsabilidade. Seria funesto viver hoje surdos à Sua chamada, fechar os ouvidos às Suas palavras de Vida, não escutar a Sua Boa Nova, não captar os sinais dos tempos, viver encerrados na nossa surdez! A força libertadora de Jesus pode curar-nos!

Arnaldo Vareiro

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

NÃO NOS FIXEMOS A TRADIÇÕES HUMANAS

1. Não sabemos quando nem onde ocorreu o confronto. Ao evangelista somente interessa-lhe evocar a atmosfera na qual se move Jesus, rodeado de mestres da lei, observantes escrupulosos das tradições, que resistem cegamente à novidade que o Profeta do amor quer introduzir nas suas vidas.

2. Os fariseus observam indignados que os seus discípulos comem com mãos impuras. Não podem tolerar: "Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos?" Falando dos discípulos, o ataque vai dirigido a Jesus. Têm razão. É Jesus quem está rompendo essa obediência cega às tradições ao criar à Sua volta um "espaço de liberdade" onde o decisivo é o amor.

3. Aquele grupo de mestres religiosos não entendem nada do reino de Deus que Jesus lhes está anunciando. No seu coração não reina Deus! Continua a reinar a lei, as normas, os usos e os costumes marcados pelas tradições. Para eles o importante é observar o estabelecido pelos "antigos". Não pensam no bem das pessoas. Não os preocupa "buscar o reino de Deus e sua justiça".

4. O erro é grave. Por isso, Jesus responde com palavras duras: "Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens?"

5. Os doutores falam com veneração da "tradição dos antigos" e atribuem-lhe autoridade divina. Mas Jesus qualifica-a de "tradição humana". Não há que confundir jamais a vontade de Deus com o que é fruto dos homens.

6. Seria também hoje um grave erro que a Igreja ficasse prisioneira das tradições dos nossos antepassados, quanto tudo nos está chamando a uma conversão profunda a Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor. O que primeiramente nos deve preocupar não é conservar intacto o passado, mas tornar possível o nascimento de uma Igreja e de comunidades cristãs capazes de reproduzir com fidelidade o Evangelho e actualizar o projecto do reino de Deus na sociedade contemporânea.

7. A nossa responsabilidade não é repetir o passado, mas tornar possível nos nossos dias o acolhimento de Jesus Cristo, sem ocultá-lo nem obscurecê-lo com tradições humanas, por muito veneráveis que nos possam parecer.

Arnaldo Vareiro

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A DIMENSÃO HISTÓRICA DO SACERDÓCIO


Ser padre é uma questão de há dois mil anos, mas ao longo dos séculos não se pôs do mesmo modo. Daí que, neste mês, iremos olhar, ainda que de forma resumida, para a perspectiva histórica do sacerdócio, isto é, como é que ele foi encarnado, vivido, entendido face às várias realidades sócio-culturais. De tão larga história escolhemos momentos, figuras e documentos mais marcantes, com a vontade de manter viva a memória viva do Povo de Deus, povo sacerdotal. Cada momento histórico foi desvelando traços da figura modelar de Cristo, único Sacerdote e Bom Pastor. Iremos resumir este percurso histórico em cinco estilos de vida: vida presbiteral, vida apostólica, vida clerical, vida sacerdotal e vida pastoral.

I. Vida presbiteral (séculos I-III)

Ao longo dos três primeiros séculos, o presbítero aparece inserido no presbitério, ao serviço da comunidade presidida pelo bispo e animada pelo Espírito Santo. O presbítero é concebido à imagem de Jesus Cristo, que é sacerdote sendo Bom-Pastor. É nesta linha do seguimento de Cristo Bom-Pastor que Policarpo de Esmirna recomenda: «os presbíteros hão-de ter entranhas de misericórdia, ser compassivos para com todos», caritativos, não apegados ao dinheiro, zelosos do bem, como os Apóstolos (Ad Philip. 6, 1).
No presbitério, o Bispo ocupava o lugar de Cristo ou o lugar de Deus. Os presbíteros ocupavam o lugar dos Apóstolos à volta de Cristo. Todos eram construtores da unidade eclesial. O presbítero servia a unidade com o bispo, com os outros presbíteros e com a comunidade eclesial. É esse o sentir das cartas de Santo Inácio de Antioquia, do princípio do século II. Vai-se tomando consciência de que o presbítero recebe o Espírito como carisma de conselho, para ajudar o bispo no governo, como colaborador e membro do presbitério.

II. Vida apostólica (séculos IV-VIII)

Entre os séculos IV e VIII produzem-se muitos escritos teológicos, nos quais os presbíteros são contemplados. Sublinha-se um estilo de “vida apostólica”. Surgem grandes figuras da Igreja com os seus tratados sacerdotais. São várias as que poderíamos elencar, mas destacamos apenas três. Assim, Gregório de Nazianzo (+390) realça que o modelo do serviço pastoral é o do Bom Pastor e de S. Paulo e considera que a arte das artes é “reger homens”.
A S. João Crisóstomo (344-407), bispo de Constantinopola, se deve o mais amplo tratado da Antiguidade sobre temas do sacerdócio, que se aplica tanto ao bispo como ao padre. Sublinha a dignidade da missão do padre e atribui-lhe, como ministério: a palavra, o sacrifício e o pastoreio. Para Crisóstomo o pastor é pai porque edifica a Igreja e faz nascer novos membros do Corpo místico. Para um ministério adequado aconselha o estudo, ao serviço da pregação e o conhecimento do povo.
Outra grande figura deste período é Santo Agostinho, para quem pregar o Evangelho à comunidade implica uma exigência de santidade. O estilo que o Bispo de Hipona viveu e semeou pautou-se por um serviço eclesial que nasce do amor. É uma presidência que procura o bem dos outros, como Bom Pastor. É atitude de serviço da Palavra e dos Sacramentos, como prolongamento do serviço de Cristo sacerdote, mediador e Bom pastor. O modelo agostiniano exprime o valor complexivo do ser padre e bispo em três articulações essenciais:
1. O bispo é cristão entre os cristãos e com os cristãos;
2. O bispo “preside”, mas o seu presidir é um ir à frente, típico de Bom-Pastor, que dá a vida pelo rebanho;
3. O bispo justifica-se a si próprio em nome desta “caridade” para com a Igreja e antes de tudo para com Cristo que o chama a segui-l’O “assim”, o convida à renúncia e à contemplação.

III. Vida clerical (séculos IX-XVI)

No começo da Idade Média, a figura do presbítero perde espírito de vida apostólica. Apesar de alguns presbíteros o continuarem a viver, acentua-se a dimensão clerical. Os concílios deste período foram estabelecendo as directrizes para a vida clerical, impedindo o crescimento da “secularização”. Decalcou-se a separação entre bispo e presbitério como hierarquia; nesta hierarquia, o bispo representa o primeiro nível, o vértice. Mais do que entre cristãos, o bispo está acima e antes. É o mediador e o intermediário.
Na Idade Média assiste-se a altos e baixos de “secularização” e de reforma. A regra de Santo Agostinho polarizou a corrente da vida apostólica, como reacção ao fenómeno da secularização. Muitas novas ordens religiosas se inspiraram no modelo agostiniano. Há dificuldade em separar os campos entre vida monacal (vida no mosteiro segundo uma Regra) e vida no presbitério. Há intercâmbio ou interacção. As comunidades de clérigos surgidas optam por oração do ofício, estudo e ensino.
As novas ordens, conservadoras do modelo agostiniano, foram-se, aos poucos, marginalizando dos presbitérios e da autoridade dos bispos, uma vez que ultrapassavam os limites da diocese. Daí a distinção entre seculares e regulares (estes podiam ser clérigos do presbitério, isto é, cónegos, ou pertencer a uma nova ordem).
A vida “canónica” decaiu no século X quando os bispos permitiram a cada presbítero viver por sua conta (fora da casa e da vida em comum), ainda que ligado ou incardinado na Igreja (diocese). Esta forma de vida tornou-se regra geral.
A reforma gregoriana quis retomar a vida em comum e a pobreza para os presbíteros; assim o prescrevia o Concílio de Roma de 1059. Duas figuras se notabilizam neste esforço por salvar a vida apostólica: S. Pedro Damião (1072) e S. Norberto (1124). O primeiro notabilizou-se pela difusão da vida em comum e pela luta contra a decadência do estado clerical. Para ele, a acção pastoral e a relação com o dom de Cristo na cruz, vivido na eucaristia, são os motivos da santidade do padre.
Apesar destes esforços, torna-se maior a cisão entre clero secular e clero regular. O clero chamado “secular” quer viver a vida canónica sem ficar enquadrado por uma regra; os cónegos eram clérigos que queriam viver esta vida de pobreza e disponibilidade apostólica, segundo os cânones, ou seja, segundo uma regra.
A época escolástica desenvolve uma reflexão teológica sobre o carácter do padre em si mesmo, que marcou os séculos XII e XIII e que teve como principal inspirador Pedro Lombardo, esquecendo quase a relação com o Presbitério, com o seu bispo e com a sua comunidade eclesial concreta. Acentua-se a acção do padre como instrumento da graça e participação na mediação de Cristo.
É no século XII que se desenvolvem as ordenações desligadas das dioceses (o abade do mosteiro ordenava os seus monges), as missas solitárias, os tratados dos sacramentos. Cada vez mais o sacerdócio é definido em relação à Eucaristia. Os grandes escolásticos do século XIII tomam consciência da novidade do sacerdócio do Novo Testamento em relação ao Antigo. Definem-no referindo-o à Eucaristia.
Neste período foram dados os primeiros passos para uma formação sacerdotal organizada. À volta das catedrais e dos mosteiros foram nascendo “escolas”, prevalentemente de formação clerical. Apesar deste esforço a vida clerical decaiu e esta decadência dos séculos XIV e XV preparará os séculos seguintes.

IV. Vida sacerdotal (séculos XVI-XVIII)

Na época de Trento, ressurgem a Teologia e a Espiritualidade presbiteral. Abrem-se perspectivas missionárias e caminhos místicos. Aparecem agrupamentos de clérigos (regulares) e escolas de espiritualidade sacerdotal.
O Concílio de Trento não quis criar um modelo ideal de vida sacerdotal. Só pretendeu criticar os erros luteranos acerca do sacerdócio. A lógica anti-luterana era clara: há um único sacrifício de Cristo. Este é tornado visível na Igreja. Ora, uma vez que há uma ligação querida por Deus entre o sacerdócio e o sacrifício, também deverá existir um sacerdócio visível e externo: é o dos padres. Não pondo de lado a doutrina do sacerdócio comum dos fiéis, usando sistematicamente a palavra sacerdotes para designar os presbíteros, o Concílio criou uma grande confusão de vocabulário. Quis defender o sacerdócio dos padres e desvalorizou o sacerdócio do Povo. Trento valoriza a relação sacerdócio-eucaristia-perdão dos pecados. Acentua a formação sacerdotal, a santidade, a cura pastoral e a pregação da Palavra. Apareceram os Seminários e as escolas de espiritualidade. Superaram-se muitas desordens clericais. Acentuou-se a vida pastoral e espiritual dos padres.
Nesta época é sublinhada a tese de Cristo sacerdote; o sacerdócio ministerial é uma participação no sacerdócio de Cristo. A função primária do sacerdote é a de prestar culto a Deus através da celebração da Eucaristia, cume do culto.

V. Vida pastoral (séculos XIX-XX)

Muitas figuras enchem estes dois séculos como os fundadores de movimentos e organizações de padres e de missões. Multiplicam-se os escritos sobre o sacerdócio. Fomentou-se, no século XIX, uma religiosidade mais “encarnada”, menos intelectual, mais emotiva, mais orientada para formas sensíveis e concretas.
Os modelos de vida presbiteral são polifacetados. Basta recordar: Jean-Marie Vianney, Santo Cura de Ars, patrono dos párocos; Antoine Chévrier, fundador da Associação Sacerdotal do Prado; Cardeal Mercier (1851-1926), um dos principais iniciadores da promoção do clero diocesano.
Após o II Concílio Ecuménico do Vaticano, o presbítero entende-se na Igreja sacramento de comunhão. A ideia teológica base da doutrina conciliar sobre o padre é a Igreja “sacramento”. Cada cristão é um sinal da pessoa de Cristo, segundo o carisma recebido. O padre é sinal pessoal de Cristo Bom Pastor (PO, 2). A sua função é dar corpo no tempo e no lugar à Palavra, ao sacrifício, à acção salvífica e pastoral do Senhor (PO, 4-6). O estilo presbiteral está nesta linha de «ascese própria do pastor de almas» (PO, 13). Aqui se situa o serviço de Cristo Cabeça do rebanho, pelo exercício de uma chefia pastoral.
Se o padre é instrumento vivo de Cristo Sacerdote, é máximo testemunho de amor (PO, 11). A espiritualidade do presbítero é caridade do Bom Pastor. Acentua-se uma espiritualidade de serviço.
O padre sentiu e sente a dúvida sobre o seu estilo numa sociedade diversa, sobre a sua natureza, identidade e razão de ser numa sociedade de valores plurais.
O II Concílio do Vaticano deu carácter mais preciso à função específica dos padres, coligando o seu ministério com a Ordem Episcopal, em orgânico exercício. O padre participa da autoridade mediante a qual Cristo constrói, santifica e governa a Igreja. É uma autoridade ministerial. Pela ordenação, os padres são assinalados e configurados.
Na prática consequente ao Concílio de Trento, o conteúdo da missão era limitado ao poder propriamente sacerdotal, cultual sobre a Eucaristia. Ser padre era dizer missa. Para o II Concílio do Vaticano, o conteúdo do ministério presbiteral é muito mais amplo: trata-se de uma obra de evangelização. O padre é padre enquanto ministro do Evangelho entre os pagãos, ministro de incorporação da Igreja, ministro da celebração eucarística. O Concílio sublinha que toda a actividade do padre deve ser teocêntrica: o padre não deve agir senão para glória de Deus!

Esta breve memória histórica que fizemos é provocadora, porque cada momento histórico foi desvelando traços da figura modelar de Cristo, único Sacerdote e Bom Pastor. Há valores permanentes. Há novos problemas. Há diferentes graças em situações históricas novas. Tantos foram os que, durante estes vinte séculos, mantiveram vivo o pastoreio de Cristo, pela forma lúcida como se abriram à Graça!

Arnaldo Vareiro

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ATRACÇÃO POR JESUS (Jo 6, 41-51)

1. O evangelista João utiliza muitas expressões e imagens fortes para gravar bem fundo nas comunidades cristãs a necessidade que têm de aproximar-se de Jesus para descobrir n'Ele a fonte de vida nova. Um princípio vital que não é comparável a nada que tenham podido conhecer anteriormente.
2. Jesus é "pão descido do céu". Não deve confundido com qualquer fonte de vida. Em Jesus Cristo podemos alimentar-nos de uma força, de uma luz, de uma esperança, de um alimento vital... que brotam do mistério mesmo de Deus, o Criador da vida. Jesus é o "pão da vida".
3. Precisamente por isso, não é possível encontrar-se com Ele de qualquer maneira. Temos de ir ao mais fundo de nós mesmos, abrirmo-nos a Deus e "escutar o que nos diz o Pai." Ninguém pode sentir verdadeira atracção por Jesus se "o Pai que O enviou não o atrai".
4. O mais atractivo de Jesus é a sua capacidade de dar vida. O que crê em Jesus Cristo e sabe entrar em contacto com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, uma vida que, de alguma maneira, pertence já ao mundo de Deus. João atreve-se a dizer que "o que comer deste pão, viverá para sempre."
5. Se, nas nossas comunidades cristãs, não nos alimentamos do contacto com Jesus, continuaremos a ignorar o essencial e decisivo do cristianismo. Por isso, nada há pastoralmente mais urgente que cuidar bem a nossa relação com Jesus, o Cristo.
6. Se, na Igreja, não nos sentimos atraídos por esse Deus encarnado num homem tão humano, próximo e cordial, ninguém nos arrancará do estado de mediocridade em que vivemos no quotidiano. Ninguém nos estimulará a caminhar mais ligeiros que o estabelecido pelas nossas instituições. Ninguém nos alentará para ir mais adiante que o que nos marcam as nossas tradições.
7. Se Jesus não nos alimenta com o Seu Espírito de criatividade, continuaremos agarrados no passado, vivendo a nossa religião a partir de formas, concepções e sensibilidades nascidas e desenvolvidas noutras épocas e para outros tempos que não são os nossos. Se assim acontece, Jesus não poderá contar com a nossa cooperação para gerar e alimentar a fé no coração dos homens e mulheres de hoje.
Arnaldo Vareiro