quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A TENDA DA HOSPITALIDADE

A 15 de Junho de 1843, na Quinta do Bosque – Amadora, perto de Lisboa, nasce, de família nobre, Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque. Na adolescência, experimenta as durezas da orfandade. Após cinco anos no Internato da Ajuda, é acolhida no Palácio dos Marqueses de Valada, onde continua a preparação para o seu meio social – a nobreza. Mas Libânia, apesar de ser tratada como filha, sente em si uma força íntima que a impele ao Mais, a um ideal maior. O seu viver é desafiado pelo clamor dos sem nada e sem ninguém.

Quer dedicar-se totalmente ao serviço dos mais necessitados e, por isso, procura a Vida Religiosa para atingir este seu objectivo. Entra no Recolhimento de S. Patrício e toma o hábito de Religiosa, recebendo o nome de Ir. Maria Clara do Menino Jesus.

Em Calais – França, faz o seu Noviciado e professa no dia 14 de Abril de 1871, regressando a Portugal. Em cerimónia solene, presidida pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão (co-fundador da Congregação), que sempre a apoiou e orientou, assume o cargo de Superiora de todas as companheiras que com ela se haviam consagrado. Nasce, assim, no dia 3 de Maio de 1871, aquela que viria a chamar-se oficialmente a Congregação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres pelo Amor de Deus, depois Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas e, hoje, Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

À medida que a Congregação ia crescendo e expandindo (por todo o território nacional, até Angola, Goa, Guiné e Cabo Verde), o coração da Mãe Clara (assim tratada carinhosamente pelos pobres) dilatava-se, norteado somente pela caridade, animado pelo conselhos que frequentemente repetia: “Trabalhemos com amor e por amor”; “Onde houver o bem a fazer que se faça!”

Parte para junto de Deus no dia 1 de Dezembro de 1899 deixando o rasto de uma vida feita oração, bondade, humildade, entrega, presença de amor e confiança, de ajuda e esperança, de indulgência e conforto.

A Mãe Clara, seguindo o exemplo do Mestre, ergue, neste mundo, a Tenda da Hospitalidade, mostrando ao mundo o rosto terno e misericordioso do Deus-Amor. Jesus, Verbo do Pai, fez-se um de nós, sofrendo as dores da história humana, dando a Sua vida na cruz, “que representa que o próprio Deus é sofredor, que Ele nos ama” (Bento XVI). Mãe Clara ateou a chama da Hospitalidade, rasgando brumas de incerteza e abrindo caminhos novos. Os tempos que vivemos carecem de luminosidade que fascine. “Iluminar e Aquecer” (Lucere et Fovere) ergue-se como bandeira, é o programa vivo, é a urgente Missão de quem quiser fazer da vida uma sementeira de Bem.

A Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição tem uma forte ligação com a nossa cidade de Braga, mais concretamente com o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro. Neste Santuário, honra-se a Imaculada Conceição, Maria, a Hospedeira do Verbo, aquela que se entregou ao Amor, aquela que fez graça, isto é, deu ao mundo o rosto da ternura do nosso Deus. A Mãe Clara quis que a Congregação fosse consagrada a Nossa Senhora do Sameiro, mas não chegou a ver realizado este sonho, mas viria a falecer quase inesperadamente. Mas as Irmãs cumpriram o desejo da sua fundadora, e, em 1901, vieram ao Monte do Sameiro consagrarem as suas vidas e os seus trabalhos hospitaleiros à Senhora do Sameiro.

Interessante esta ligação da Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição com o Santuário do Sameiro! Por isso, em ano da Beatificação da Mãe Clara e no início de um Ciclo Inaugural de Concertos do novo órgão da Basílica, a Confraria do Sameiro convidou a Ir. Maria Amélia Costa, Franciscana Hospitaleira da Imaculada Conceição, para vir ao Sameiro apresentar o musical mariano “Cantar Maria e como Ela ser feliz!” Será no próximo dia 20 de Fevereiro, Domingo, às 15.15 horas, na Basílica do Sameiro. Às 16.30 horas haverá Eucaristia, presidida pelo Cónego José Paulo Abreu, Presidente da Confraria do Sameiro.

Vamos comparecer e, através da Mãe Clara, olharmos para Maria, rosto terno de Deus, ganhando energias para erguermos nesta História, que é a nossa, a Tenda da Hospitalidade!


Arnaldo Vareiro

sábado, 29 de janeiro de 2011

LOURDES E O SAMEIRO

Na sua Bula “Ineffabilis Deus”, de 1854, Pio IX “declarava, pronunciava e definia” que a Mãe de Deus foi Imaculada na Sua Conceição e que assim o declarava e definia “para honra da Santíssima Trindade, para decoro e ornamento da Bem-aventurada Virgem Maria, para exaltação da fé católica e aumento da religião cristã”.

Quatro anos depois, em Lourdes, Nossa Senhora veio sensivelmente confirmar o oráculo de Pio IX: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Em 1861, nasce o sonho do P. Martinho Pereira da Silva: construir um monumento dedicado à Imaculada Conceição da Virgem Maria, perpetuando a definição dogmática. Depois de inúmeros esforços, nasce o Sameiro, intérprete de Portugal, que é terra da Senhora da Conceição, dando prova inequívoca de devoção à sua Imaculada Rainha. Lourdes, em França, tornou-se o centro de convergência das atenções de todo o mundo; em direcção a Lourdes se encaminham as multidões em busca da saúde do corpo e do espírito. Em Portugal, o Sameiro acolhe centenas de peregrinos que buscam a paz e a serenidade do espírito e a saúde do corpo.

Em 11 de Fevereiro, celebra-se a memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes e o Dia Mundial do Doente. Por isso, este dia reveste-se também de particular importância para todos os devotos da Virgem Imaculada do Sameiro.

Em 1958, foi celebrado o centenário de Lourdes no Sameiro. Foi um acontecimento celebrado com especial solenidade, tendo como principal convidado de honra da Confraria do Sameiro de então o Senhor Bispo de Tarbes e Lourdes, Mons. Pierre-Marie Théas. Para fazer memória deste acontecimento, foi publicado um livro intitulado “Lourdes no Sameiro”, que contém todos os discursos proferidos pelos ilustres convidados nas sessões comemorativas. Partilho com os leitores a alocução que fez Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Núncio Apostólico D. Fernando Centro, na Missa Campal celebrada no Sameiro a 1 de Junho de 1958, por ocasião do encerramento das Comemorações das Aparições de Lourdes.


“Bendita seja a gloriosa cidade de Braga, que tão merecidamente foi chamada a Roma de Portugal!

Bendita seja, pelos históricos triunfos eucarísticos e marianos que nela se celebraram!

Bendita seja, pelos monumentos imponentes que levantou, para exaltar Cristo Nosso Senhor, sua Mãe Santíssima e seu Vigário na Terra, o Sumo Pontífice!

Não duvido, este hino, que aos lábios me sobe do fundo da alma, tem ressonância nos aqui presentes, embora nem todos sejam bracarenses, pois se basia numa realidade histórica indiscutível.

Pela terceira vez me cabe presenciar, nesta urbe insigne, festas memoráveis.

Foi a primeira quando, no Ano Mariano de 1954, aqui se reuniu o grandioso II Congresso Mariano Nacional.

Voltei a ela em 1957, por motivo do igualmente magnífico Congrsso do Apostolado da Oração.

E assim como outro Núncio Apostólico, meu predecessor, numa solene ocasião, coroou a formosíssima imagem da Padroeira, que sorri do altar-mor desta Basílica, eis-me aqui novamente, convidado pelo venerando e venerado Arcebispo Primaz, para festejar convosco o centenário das Aparições de Lourdes.

Ah, Lourdes! É um nome que faz vibrar as fibras mais íntimas das almas de todos os cristãos, no mundo inteiro.

Lourdes é a capital do milagre; é, dir-se-ia, um pedaço de céu na terra; é o Tabor do sofrimento transfigurado; é a clínica prodigiosa para todas as doenças do corpo e da alma; é a casa da Mãe celeste, em que todos os seus filhos – não importa se de raça, de língua, de condições diferentes – se sentem irmãos.

Bem-aventurados os que nesta jubilosa puderam peregrinar até Lourdes, para ali passarem horas de verdadeira felicidade!

Se nem a todos, porém, se concederá esse privilégio, dizei-me qual a nação, qual a cidade, qual a vila, qual a freguesia, qual a aldeia onde não se deseje, em plena sintonia espiritual, comemorar, pela melhor forma, este centenário?

Deu, por isso, o sinal o Augusto Vigário de Cristo, com a Encíclica de 2 de Julho do ano passado, que, evocando as aparições da Imaculada a Bernardette, incitava o mundo católico a prostrar-se aos seus pés, para lograr a restauração cristã da sociedade; e que, com a Constituição Apostólica do dia primeiro de Novembro seguinte, se dignou conceder a indulgência do Jubileu aos peregrinos que visitassem aquele Santuário.

Podia Portugal, podia particularmente Braga não corresponder com fervor entusiástico ao empolgante apelo do Chefe da Igreja?

Pois bem, poucos lugares da Terra de Santa Maria se poderiam indicar, tão a propósito, para esta manifestação religiosa, como o Santuário do Sameiro.

Efectivamente, é preciso lembrar que a Aparição da gruta de Massabielle, acontecida quatro anos depois da definição dogmática da Conceição Imaculada de Maria, foi, se se me permite a expressão como que o seu selo divino, a sua celestial sanção e confirmação.

Não respondeu Ela à feliz donzela que lhe perguntou o seu nome: “Eu sou a Imaculada Conceição?”

Ora bem, se com esse dogma está intimamente e indissoluvelmente ligado o Santuário de Lourdes, não é verdade que, no Santuário do Sameiro, o piedoso povo português se sente como que em Lourdes?

Sameiro... Sameiro... Maravilha de beleza natural, soberbo conjunto de edifícios sagrados, obra-prima com que, por iniciativa de um humilde sacerdote, o saudoso Padre Martinho, secundado pela devoção e generosidade de toda uma nação, quis Bracara Augusta demostrar a sua alegria irreprimível, por se ter oficialmente reconhecido a Maria a imunidade do pecado original.

Creio poder afirmar, sem exagero, que, a cinquenta anos daquela proclamação dogmática, não se ergueu talvez no mundo católico padrão semelhante em honra da Imaculada.

Transborde, hoje, portanto, todo o nosso júbilo, ressoem os nossos cânticos, cheguem ao trono de Maria as nossas ardentes orações.

Que poderá negar-nos, este ano, essa benditíssima Mãe?

E a Ela, que poderá negar-lhe o seu Filho Divino?

Oh! São tantas as nossas necessidades pessoais, tantas as necessidades da Igreja, tantas as necessidades da humanidade!

Para as enumerarmos todas, teríamos de nos servir de larga ladainha.

Pois bem, livre, cada um de vós, de expor-lhe essa ladainha, deixai que eu me faça eco, neste momento, dos desejos do Santo Padre, como seu Representante que sou, assinalando-vos as cincos especiais graças a pedir por intercessão de Maria, segundo ele próprio recomendou, na já citada Constituição Apostólica de 1957.

Seja a primeira o regresso, ao redil da Santa Igreja, dos que se afastaram da verdade.

Pobres errantes, que, longe de Cristo, andam às cegas nas sombras da morte!

Como poderíamos, gozando as doçuras inefáveis da fé, não experimentar profunda compaixão pelos que a perderam?

Virgem Maria, iluminai-os.

Stella matutina, ora pro nobis!

Seja a segunda a conversão dos pecadores. Não vos sentis – dizei-me – consternados, ao encontrardes tantos infelizes, que, escravizados por tirânicas paixões, tombaram no abismo do mal?

Estarão, talvez, aqui mesmo alguns desses desventurados?

Oh! Que Maria rompa as suas cadeias e os faça cair, como filhos pródigos, nos braços do Pai que está no Céu.

Refugium peccatorum, ora pro nobis!

Seja a terceira o progresso das almas justas até à santidade.

Grande graça é esta. O mundo, como um nenhuma outra época, mais do que de génios, precisa hoje de santos.

Todos somos chamados à santidade: esta vocação coincide com a nossa vocação de cristãos. Pois bem, não nos contentemos com a mediocridade e a rotina, mas aspiremos às alturas.

Haja santos prelados, santos sacerdotes, santos religiosos, santos pais de família, santos operários, santos homens públicos, santos jovens, por intercessão da Imaculada, modelo de toda a santidade.

Regina Sanctorum omnium, ora pro nobis!

Seja a quarta graça, que lhe pediremos, a paz, a suspiradíssima paz entre os povos.

Muitos, entre nós, recordam as duas guerras mundiais, que ensoparam a terra de tantas lágrimas e de tanto sangue. Além disso, à parte a guerra fria que se prolonga há um decénio, estamos em contínuo sobressalto, sob a ameaça de uma guerra atómica, mais catastrófica, cujas consequências poderão ir até à extinção da raça humana.

Basta de ódios, basta de rancores, basta de vinganças.

Que reinem entre os homens, a concórdia e o amor!

Regina pacis, ora pro nobis!

Finalmente, mais uma graça ainda temos que implorar a Maria, isto é, a liberdade da Igreja, para que possa cumprir, sem provações, a missão salvadora que Cristo lhe confiou.

Aqui a minha alma sente-se constrangida pela dor mais aguda, perante a desapiedada luta, que se trava contra a Esposa de Cristo.

Em quantas nações ela está como que manietada! Quantos ministros de Deus, cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos, fiéis católicos, encerrados em cárceres pavorosos, ou privados, pelo menos, dos seus mais sacrossantos direitos!

Todas as armas, todas as artes, todas as insídias, se empregam, desde a lisonja até ao terror, para fazer renegar a doutrina de Cristo.

Muitos mártires se fizeram já; agora, porém, a táctica dos inimigos tem tomado outro rumo, procurando conseguir apóstatas.

Trágica situação, que nos enche de profundo pesar...

Porém, não vacilemos, não duvidemos, não desesperemos.

Assiste-nos Aquela que esmagou a cabeça da serpente infernal, Aquela a quem dirige a mesma Igreja este louvor – Tu só, debelaste todas as heresias.

E Ela debelará ainda esta, que é a heresia das heresias, a aberração das aberrações.

Supliquemos-lhe, sim, que defenda, que ampare, que salve a Santa Igreja.

Auxilium christianorum, ora pro nobis!

Oh, Maria! Oh, Maria! Depois do Todo-Poderoso, é apenas em Ti que está colocada a nossa esperança.

Rainha do Céu e da Terra, Mãe amorosíssima, piedade das nossas desventuras, das nossas atribulações, das nossas angústias.

Unidos ao Pastor Supremo da Igreja, Vos imploramos que, no ano centenário de uma das Vossas maiores misericórdias para connosco, degredados neste vale de lágrimas, depois de tantas tempestades, volte finalmente a brilhar o arco-íris da reconciliação da humanidade com Deus e dos homens entre si.

“Ó branca Visão do Paraíso, - Vos diremos com as mesmas palavras do Santo Padre – expulsai dos espíritos as trevas do erro com a luz da Fé! Ó mística Rosa, aliviai as almas abatidas com o perfume celeste da Esperança! Ó Fonte inesgotável de água salutar, reanimai os corações áridos com o orvalho da Caridade divina!

Fazei com que todos nós que somos Vossos filhos, reconfortados por Vós em nossas penas, protegidos nos perigos, sustentados nas lutas, amemos e sirvamos Vosso doce Jesus, de tal sorte que mereçamos as alegrias eternas, junto do Vosso trono no Céu. Assim seja!”

Arnaldo Vareiro

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Regressar à Palavra


Setembro é o mês dos regressos! É o regresso à escola, ao emprego, à azáfama do dia-a-dia… Também para a Igreja, Setembro é o mês do regresso; retomam-se e programam-se as actividades pastorais. As comunidades paroquiais parece que retomam a energia e a vida.

A nossa Igreja Arquidiocesana, portanto, todos nós, retoma o seu plano pastoral dedicado à Palavra de Deus e convida-nos a Viver da Palavra. Importa que o acolher se oriente para o viver. Para acolher a Palavra de Deus, precisamos de entrar nesse grandioso mundo que é a Bíblia para ler, acolher, meditar, rezar e viver a Palavra. Infelizmente, a Igreja, ao longo de tantos anos, como que se esqueceu da Palavra. Felizmente que, agora, quer regressar ao fundamento da fé cristã, à fonte de toda a Tradição e Doutrina. Somos convidados a regressar à Palavra!

Para termos sucesso neste regresso à Palavra, o Concílio Vaticano II colocou a 18 de Novembro de 1965 um precioso documento introdutório para a leitura e escuta orante da Palavra de Deus, a Constituição Dogmática Dei Verbum. Muitos de nós já possuem a Bíblia, mas também seria importante adquirirmos este documento, que é pórtico da Bíblia. Ao longo deste ano pastoral, irei partilhar convosco algumas pistas de leitura da Constituição, esperando assim poder contribuir para um melhor acolhimento e vivência da Palavra de Deus.

Lê-se no número 12 da Dei Verbum: “Deus falou na Sagrada Escritura por meio de homens e de maneira humana”. A história da Bíblia é história da Palavra de Deus aos homens. Os Antigo e Novo Testamentos descrevem-nos o itinerário da Palavra de Deus, a qual: cria o mundo (Gn 1), chama Abraão (Gn 12, 1ss), é dirigida aos profetas de Israel (Os 1, 1; Jr 1, 2); assume o rosto de homem em Jesus de Nazaré (Jo 1, 1-14), “difunde-se, cresce e afirma-se com força” com a dilatação da Igreja Apostólica (Act 6, 7; 12, 24; 19, 20), regula o fim do universo e o início do novo mundo (Ap 19, 11-16; 21, 1 ss). É este itinerário que, ao longo deste Ano Pastoral, iremos percorrer num diálogo amigo com Deus, que nos fala em linguagem humana para fazer comunhão de vida connosco. A Revelação de Deus é descrita, neste documento, com a categoria da palavra, mais ainda, do diálogo amigável: “Em virtude desta Revelação, Deus invisível, na riqueza do Seu amor, fala aos homens como a amigos e conversa com eles para os convidar e admitir a participarem da Sua própria vida” (DV 2).

Vamos entrar nesta “conversa”?! Boa viagem de regresso à Palavra! Bom Ano Pastoral! A Senhora do Sameiro, Senhora Hospitaleira da Palavra, caminha connosco!


Arnaldo Vareiro


segunda-feira, 17 de maio de 2010

O ESPÍRITO SANTO

No próximo dia 23 de Maio, a Igreja celebra a Solenidade de Pentecostes, com a qual encerra o Tempo Pascal. O Espírito Santo, dom do Senhor Jesus Ressuscitado, continua a ser “o grande desconhecido da Igreja”. Por isso, deixamos aos nossos leitores esta reflexão sobre a Pessoa do Espírito Santo e os seus dons.
O Espírito Santo é Deus, como o Pai e o Filho. O Espírito está presente desde o princípio e na origem da criação (Gn 1, 2 e 2, 7) e aparece continuamente na história do Povo de Deus, manifestando-se de diferentes maneiras a diversos homens e mulheres. Estes tiveram a sensibilidade para O perceberem e deixarem-se seduzir por Ele, desde reis e profetas a pobres pecadores sem estudos.
Nesta reflexão sobre o Espírito Santo, propomos apenas algumas pistas e vários textos bíblicos para que o leitor possa ter a oportunidade de sentir a sua brisa e o seu calor, porque é sopro e fogo que vem a nós no Pentecostes. Os textos que sugerimos são do Novo Testamento, pois nos parecem apropriados para penetrar e viver este tempo do Espírito. No Novo Testamento, fala-se frequentemente do Espírito Santo. Também é chamado “Espírito de Deus”, “do vosso Pai”, “de Jesus”, “de Verdade”, “de vida”, o “Consolador”, entre outros nomes. Alguns exprimem claramente que Ele procede do Pai e do Filho. Além disso, é representado, na sua actuação, com os símbolos da pomba, do vento, do fogo, da água, do selo que marca…
A utilização desta simbologia não deve fazer-nos esquecer de que o Espírito é uma Pessoa e de que, na Bíblia, lhe são atribuídas faculdades próprias dos seres humanos: tem inteligência (Rm 8, 27); vontade (1 Cor 12, 11); sentimentos (Ef 4, 30 e Rm 8, 27); revela-se (2 Pe 1, 21); ensina (Jo 14, 26); dá testemunho (Gl 4, 6); intercede (Rm 8, 26); fala (Ap 2, 7); ordena (Act 16, 6-7); podemos contristá-l’O (Ef 4, 30); mentir-Lhe (Act 5, 3) e até falar contra Ele (Mt 12, 31-32).
O Espírito Santo é o sopro de Deus, o alento vital que transforma a nossa realidade, criando um coração novo no Povo de Deus, fortalecendo-o, animando-o interiormente, convertendo-o em testemunha da sua fé. Este Espírito manifesta-se, sobretudo, em Jesus, que depois no-l’O envia para que conheçamos a vontade de Deus e demos fruto.
Com o Pentecostes (Act 2, 1-11), a criação e o mundo inteiro recebem um novo impulso. Ao mesmo tempo, as comunidades cristãs tornam-se missionárias e lançam-se, sem temor, a anunciar a Boa-Nova a todos os povos. A Igreja nascente experimenta a acção do Espírito porque é purificada por Ele; o Espírito inspira-a, dá-lhe unidade e fortaleza, preside às decisões da Comunidade e edifica-a.

Os dons

Os dons vulgarmente atribuídos ao Espírito, não são exaustivos nem excludentes; resumem, porém, toda a acção que Ele realiza em nós. Todavia, acima de todos, há um dom que dá sentido a todos os outros: o dom do Amor. Não de qualquer tipo de amor, mas do que tem a sua expressão máxima na entrega da vida pelos irmãos. É este o maior dom do Espírito Santo. Sem ele, a nossa vida não tem sentido. O amor (ou a caridade) é a primeira acção de Deus: Ele criou o homem e o mundo por amor e, na plenitude dos tempos, Jesus Ressuscitado, por amor, salvou-nos da morte.

Os sete dons do Espírito Santo

Aprendemos, desde sempre, que os dons do Espírito Santo são sete. Mas este número tem um significado simbólico: plenitude, totalidade e perfeição. Os sete dons (tal como os sacramentos) pretendem resumir toda a acção do Espírito Santo nos cristãos. Constam do Livro de Isaías, da passagem em que o profeta refere as qualidades do futuro Messias:
“Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor. Não julgará pelas aparências, nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer; mas julgará os pobres com justiça, e com equidade os humildes da terra...” (Is 11, 2-4a).

Sabemos que os dons do Espírito não são ofertas passivas, mas que exigem uma resposta, como o profeta o diz claramente. Portanto, quem for movido pelo Espírito Santo, deve actuar desse modo. Meditemos um pouco sobre o significado e o sentido dos mesmos:

Sabedoria: consiste em conhecer a Deus. Ser sábio, segundo o Espírito, é conhecer e experimentar o amor e a bondade de Deus, que pratica a justiça e nos torna capazes de sermos também justos. Isto não se aprende nem nos livros, nem nos cursos, mas através de uma vida pessoal e comunitária de oração.

Entendimento: é o dom que nos ajuda a descobrir qual é a vontade de Deus nas grandes e pequenas situações quotidianas.

Ciência: este dom dá-nos a capacidade de discernir, vendo o que é bom e o que é o melhor. Dá-nos a conhecer o projecto de Deus para cada dia. Faz-nos agir de acordo com os princípios e valores cristãos.

Conselho: por meio deste dom, podemos dialogar fraternalmente com as nossas famílias e em comunidade cristã. Podemos ajudar quem precisa, orientando e colaborando para encontrar as melhores soluções. Pelo conselho e pela palavra oportuna, devemos animar os desanimados, encorajando-os a não baixarem os braços e, também, podemos encarar a vida com optimismo.

Fortaleza: este dom ajuda-nos a enfrentar as dificuldades e problemas, que, às vezes, parecem asfixiar-nos e impedir-nos o caminho, com coragem e energia. Ajuda-nos a vencer as tentações de abandonar Jesus e enveredar por um caminho mais fácil. Leva-nos a dar provas de mansidão e de alegria nas obrigações que nos compete cumprir como pais, trabalhadores, estudantes, políticos, catequistas, animadores da comunidade, etc.

Piedade: é o dom de Deus que nos faz descobrir o coração de Deus que nos ama profundamente. Também nos convida a entregar-Lhe o nosso e envia-nos aos irmãos que mais necessitam da nossa consolação. É o dom da Misericórdia.

Temor de Deus: este dom faz-nos reconhecer, humildemente, que Deus é sempre maior que tudo o que podemos imaginar e impele-nos a respeitá-l'O e a amá-l'O como nosso Pai.
Todos nós recebemos um ou mais dons para os partilhar na comunidade. Agir de outro modo, seria provar o Povo de Deus de algum serviço. Devemos receber estes dons ou carismas com acção de graças, sabendo que são ofertas que nos comprometem e que o Espírito dá a quem quer, quando e como quer.
Pois bem, os carismas e dons do Espírito são dados para a edificação da Igreja; compete à própria Igreja pronunciar-se sobre a sua autenticidade.


Oração:
Pai bondoso, derrama o teu Espírito sobre nós e faz-nos generosos no serviço dos outros. Que não nos fechemos nos nossos egoísmos para que, pelo nosso testemunho, em toda a surjam e progridam comunidades que sirvam e vivam como o Teu Filho Jesus Cristo. Amen.

Arnaldo Vareiro

segunda-feira, 19 de abril de 2010

TESTEMUNHO QUE CHAMA

 Celebramos, no próximo dia 25 de Abril, Domingo do Bom Pastor, a 47ª Semana de Oração pelas Vocações. Na sua mensagem para este dia, o Papa Bento XVI convida “os presbíteros, os religiosos e religiosas a serem fiéis à sua vocação, ajudando todos os cristãos a responderem à sua vocação universal à santidade”. O testemunho suscita vocações! O testemunho quotidiano e concreto de uma vida totalmente doada a Deus, na fidelidade e na alegria, impressionará e suscitará tantos homens e mulheres a experimentarem o dom da vocação. Assim o fez São João Maria Vianney no contacto com os seus paroquianos e com aqueles que procuravam os seus conselhos de pastor e guia. Todo o cristão é um ser vocacionado: em primeiro lugar, à Vida, depois, à vida de filho de Deus pelo Baptismo, levando este dom à perfeição através da vocação presbiteral, religiosa, matrimonial ou celibatária. Ser vocacionado é escutar, em cada época e em cada história, a voz de Deus, que Se comunica que variadíssimas formas. Quero, neste mês essencialmente vocacional, mostrar, caro leitor, como o Cura d' Ars ensinava com o testemunho da sua vida os fiéis a aproximarem-se mais de Deus e a serem interpelados por Ele; como o Santo era mediador entre o Senhor que chama e aquele ou aquela que sentia interpelado(a).

Contam os seus registos biográficos que, no ano de 1836, o casal Millet, de Mâcon, resolveu passar alguns dias em Ars para poderem estar com o Santo Cura d' Ars. Com efeito, puderam falar-lhe. Mas a filha Luísa Colomba, que tinha ido com eles, não queria de modo algum entrevistar-se com o servo de Deus. Não obstante, era boa e piedosa. Os peregrinos estavam prestes a sair de Ars, após uma semana de permanência naquele povoado. Foram pela última vez à igreja, quando o P. Vianney passava para a sacristia. Guiado por uma intuição sobrenatural, lançou à multidão um olhar penetrante e fez sinal com o breviário a Luísa Millet. Ela compreendeu logo. Tinha que se render. A multidão abriu-lhe passagem e com um gesto o Santo apontou-lhe o confessionário. A jovem ajoelhou-se. Depois de uma breve conferência, ouviu a palavra que iria orientar toda a sua vida. “Minha filha, serás religiosa visitandina. Deus o quer... Deus o quer”. A penitente resistiu. Mas o Cura d' Ars repetiu pela terceira vez: “Minha filha, Deus o quer”. As dificuldades que tinha a vencer pareciam insuperáveis. Todas se aplanaram por si mesmas. E Luísa Colomba, livre de todos os liames, levantou o voo para a arca santa. Morreu no mosteiro em 20 de Agosto de 1908, cheia de méritos, com a idade de 89 anos e com 64 de profissão religiosa.

Outro exemplo. “Meu padre, perguntava-lhe um sacerdote ajoelhado aos seus pés, hei-de alimentar em mim os desejos da vida religiosa, que sinto tão vivamente desde o segundo ano que estive no seminário maior, ou seja já aos vinte anos?” Respondeu-lhe o Cura d' Ars sem rodeios: “Sim, meu amigo, este pensamento vem de Deus; é preciso cultivá-lo.

  • Nesse caso, meu Padre, permitir-me-á deixar o cargo que ocupo (este sacerdote era professor num seminário menor) e entrar para uma ordem religiosa? Que acha melhor?

  • Devagar, meu amigo. Fique onde está. Saiba que Deus manda, às vezes, bons desejos, cuja realização nunca exigirá neste mundo”.

O P. Vianney, às pessoas casadas, fazia-lhes ver a grandeza da sua vocação, exortando-as a cumprirem santamente as suas obrigações. Uma senhora, que já tivera muitos filhos, ia ficar mãe novamente. Foi buscar coragem junto do Cura d' Ars. Não precisou de esperar muito, pois o Santo chamou-a de entre a multidão.

  • Estás tão triste, minha filha - observou-lhe quando se ajoelhou no confessionário.

  • Ah! Sim, já estou tão velha, meu Padre!

  • Ânimo! Não te assustes com o fardo! Nosso Senhor carrega-o contigo. O que Deus faz é bem feito. Quando concede a uma mãe muitos filhos, é sinal de que a julga digna de educá-los. É da parte d' Ele prova de confiança.


Estes três exemplos mostram-nos como São João Maria Vianney era um instrumento do qual Deus se servia para chamar, para guiar os homens no caminho da sua história. A santidade da sua vida e a sua prudência sobrenatural nas decisões inspiravam às almas justas uma confiança sem limites. Ser vocacionado é perscrutar em cada dia a voz e o sopro do Espírito; é testemunhar que vale a pena aspirar ao Mais!

Nunca esqueçamos de rezar pelas vocações! Confiemos à Senhora do Sameiro, Mãe do Sim, todos aqueles que se sentem chamados e inquietados por Deus para que saibam acolher, em cada dia, o que Deus quer!


Arnaldo Vareiro

terça-feira, 30 de março de 2010

EUCARISTIA, NUTRIÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

O Tríduo Pascal do Senhor (Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus) começa na tarde de Quinta-Feira Santa, na qual Jesus institui, no Cenáculo de Jerusalém, a Santíssima Eucaristia e o Sacerdócio. A Igreja, todos nós como baptizados, é convidada a encetar com o Senhor Jesus este caminho desde o Cenáculo até à manhã de Páscoa. Este caminho inicia-se com a celebração da Eucaristia, na qual Jesus antecipa a sua entrega total na Cruz. Neste Ano Sacerdotal, reveste-se de particular importância este dia. Somos convidados a dar graças pelo dom do sacerdócio ministerial pelo qual Jesus Cristo perpetua o Seu Sacramento de Amor e a aproximar-mo-nos mais e melhor deste Amor doado totalmente. Para nos ajudar viver melhor este dia e em continuação do que partilhei convosco no número anterior, partilho convosco uma catequese que S. João Maria Vianney proferiu em Ars sobre a comunhão de Jesus Eucaristia:
“Meus filhos, todos os seres da criação têm necessidade de se nutrirem para viver; foi para isso que Deus fez crescer as árvores e as plantas; é uma mesa bem servida onde todos os animais vêm cada um tomar o alimento que lhe convém. Mas é necessário que a alma também se nutra. Onde está, pois, o seu alimento?... Meus filhos, quando Deus quis dar alimento à nossa alma para a sustentar na sua peregrinação neste mundo, olhou para todas as coisas criadas e não encontrou nada digno dela. Então concentrou-se em si mesmo e resolveu dar-Se a si próprio...
Oh! Minha alma, como és grande! Só Deus te pode contentar!... O alimento da alma é o Corpo e o Sangue de Deus!... Oh! Formoso alimento! A alma não se pode alimentar senão de Deus. Só Deus lhe pode bastar. Só Deus a pode saciar. Fora de Deus não há nada que possa saciar a sua fome. Necessita absolutamente de Deus... Que ditosas são as almas puras unidas a Deus pela comunhão. No céu resplandecerão como formosos diamantes porque Deus Se reflectirá nelas... Oh! Vida ditosa! Alimentar-se de Deus! Oh! homem, como és grande. Nutrido, abeberado com o Corpo e o Sangue de um Deus! Ide, pois, comungar, meus filhos!...”

Que palavras cheias de ardorosos apelos e exclamações sublimes nos deixa o Cura d' Ars! Somos convidados a permanecer no Lado Aberto do Senhor Jesus, trespassado no alto da Cruz. Pela comunhão eucarística, o Coração de Jesus estende a sua morada a cada coração humano. No Coração de Cristo, o Pai prepara-nos um banquete, ao qual não devemos faltar, pois a Eucaristia é o maior dom do amor de Deus e é necessário corresponder a tal dom. O Amor reclama amor.
Neste tempo pascal, saibamos permanecer, pela comunhão eucarística, mergulhados no abismo de misericórdia e beleza, isto é, na chaga aberta para sempre do Lado de Cristo, na e pela qual fomos salvos e redimidos dos nossos pecados!
Arnaldo Vareiro

sábado, 27 de março de 2010

O JESUS DA PÁSCOA

Não é fácil descrever o Jesus da sua última semana entre os humanos. Contudo, com os textos bíblicos nas mãos, poderíamos entrar no seu coração para percorrer com Ele o duro caminho da Paixão à alegria da Páscoa.

A entrada triunfal em Jerusalém não pode ter produzido n’ Ele os efeitos de uma mudança de consciência para o fazer sucumbir diante de tanto triunfalismo. Já o tinha pré-anunciado três vezes: o Filho do Homem devia sofrer e morrer em Jerusalém. Esta consciência da sua missão unia-se à compaixão de ver o seu povo “com ovelhas sem pastor”, à espera de um Messias e um Reino que tinham muito pouco a ver com Ele e com a sua mensagem. Jesus seguramente sabia que o “Hossana!” desse domingo se transformaria no “Crucifica-O” da Sexta-Feira Santa.

Dois dias antes da celebração da Páscoa com os seus discípulos, Jesus sai de Jerusalém para Betânia, a poucos quilómetros dali, onde Maria, a irmã de Lázaro, antecipa a sua sepultura ungindo-lhe a cabeça com um perfume valioso (Jo 12, 1-8). Betânia, para Jesus, era o lugar da amizade, era o calor do lar fraterno, onde o Mestre parece procurar a força humana oferecida pela proximidade dos amigos, antes de enfrentar a dor da traição de judas.

A dor que essa traição pode ter provocado em Jesus é incalculável. Sobretudo se a unirmos às traições dos outros discípulos que, embora sem receberem trinta moedas de prata como recompensa, adormecem quando Ele lhes pede que velem ao seu lado, não duvidam em abandoná-lo quando é levado ao tribunal e, inclusive, negam tê-Lo conhecido, como Pedro na noite de Sexta-feira Santa.

Os maus-tratos dos dois tribunais, a incompreensão da sua missão por parte de quem – supunha-se – melhor O devia entender, a humilhação das zombarias e o escárnio dos soldados, a sede, a dor dos chicotes, o peso da cruz... pouco a pouco iam destruindo o seu corpo para revelar a grandeza de Deus.

As dores sobre a cruz, a lenta agonia de quase três horas, são indescritíveis. Só nos resta contemplar em silêncio, ou melhor, descrevê-los servindo-nos do quarto cântico do Servo de Iahveh que Isaías escrevera:

“(...) Muitos ficaram espantados por causa dele, pois já não parecia gente, tinha perdido toda a aparência humana... desprezado e rejeitado pelos homens, homem de sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo diante do qual se tapa o rosto, ele era desprezado e não fizemos caso dele... Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca... Foi preso e julgado injustamente... A sua sepultura foi colocada junto dos ímpios e o seu túmulo junto dos ricos, embora nunca a mentira estivesse na sua boca...” (Is 52, 14; 53, 3-4. 7-9).

O Gólgota marca o ponto final do aparente fracasso: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Jesus morre na cruz.

Contudo, no primeiro dia da semana, com as primeiras luzes da aurora, Jesus Ressuscitado aparecerá às mulheres que, chorando no sepulcro, pensam que alguém roubou o seu Senhor. Se o seu corpo glorioso não lhes permite reconhecê-Lo imediatamente, a doçura inconfundível da sua voz volta a expressar a compaixão de sempre: “Mulher, porque choras? Quem procuras?” (Jo 20, 15).

E, ante a tentação da mulher para O deter, responderá com o desapego necessário para a missão que começa: “Vai dizer aos meus irmãos...” (Jo 20, 17).

A partir desse momento, à luz da Ressurreição, a Igreja celebrará, catequizará e anunciará o Senhor Jesus que, sendo embora de condição divina, “não Se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a Si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens. Assim, apresentando-Se como simples homem, humilhou-Se a Si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz! Por isso, Deus O exaltou grandemente, e Lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao Nome de Jesus, se dobre todo o joelho no Céu, na Terra e sob a Terra; e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2, 6-11).

Através dos séculos, a genuína pregação da Igreja é a que foi fiel a este “Kerigma”, a este anúncio de Cristo crucificado; mas ao mesmo tempo ressuscitado pelo poder do Pai e constituído por Ele “Senhor e Messias” (cf. Act 2, 36).

Devemos aceitar que durante muito tempo a pregação e piedade popular tenham posto o acento na morte, ocultando a Ressurreição de Jesus.

É oportuno, por isso, realçar que essa “espiritualidade da cruz” também deve “ressuscitar” à luz da Vida nova do Ressuscitado.

A Igreja está ao serviço da vida porque é o corpo de Cristo, o Senhor da Vida. Desta forma, pretende tornar suas, em cada dia, as palavras de Jesus: “Eu vim para que tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).


Arnaldo Vareiro

sábado, 13 de março de 2010

Capítulo I da Dei Verbum - A REVELAÇÃO EM SI MESMA

(Natureza e objecto da Revelação)


2. Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade, por meio do qual os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e n' Ele se tornam participantes da natureza divina. Por consequência, em virtude desta revelação, Deus invisível, na abundância do seu amor, fala aos homens como a amigos e dialoga com eles, para os convidar à comunhão com Ele e nela os receber.

Este plano “da revelação” concretiza-se por meio de palavras e acções intimamente ligadas entre si, de tal modo que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras. As palavras, porém, proclamam as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Todavia, o conteúdo profundo da verdade tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação.


A revelação aqui descrita é a revelação na sua fase activa e constituinte, que se concretiza pelas vias da história e da encarnação. Ela é um efeito do beneplácito de Deus: placuit (cf Ef 1, 9-10). É graça. É livre iniciativa de Deus. É obra de amor, que procede da bondade e da sabedoria de Deus. Reparemos que a bondade de Deus é colocada, pelo texto, em primeiro plano.

O Concílio personaliza a noção de revelação: antes de dar a conhecer algo, isto é, o desígnio de salvação, o próprio Deus se revela. Veja-se como o mistério Paulino evoca este desígnio salvífico. O mistério é o plano divino total; o mistério é Cristo.

Em que consiste o plano salvífico acerca da humanidade? O desígnio de Deus consiste em que os homens, por Cristo, Verbo encarnado, tenham acesso ao Pai (Ef 2, 18) no Espírito e se tornem participantes da natureza divina (2 Pe 1, 4). Este desígnio, expresso em termos de relações interpessoais, inclui os três principais mistérios do cristianismo: a Trindade, a encarnação e a graça.

Depois de afirmar o plano e o objecto da revelação, o concílio precisa a sua natureza. Deus, na superabundância do seu amor, sai do seu mistério. Deus rompe o silêncio: dirige-se ao homem, interpela-o e inicia com ele um diálogo de amizade, como fez com Moisés (Ex 33, 11) e com os apóstolos (Jo 15, 14-15).

Deus conversa com os homens para convidá-los à comunhão consigo e para recebê-los na sua companhia (Baruc 3, 38). Pela encarnação, Deus entra na existência humana, vive com os homens. Jesus Cristo é a sabedoria de Deus que baixou à terra e relacionou-se com os homens, falou-lhes.

Deus falou à humanidade pela palavra. O nosso Deus é o Deus da palavra: fala a Abraão, a Moisés, aos profetas, por meio deles, ao povo. Por Cristo, Deus fala aos apóstolos e nos fala, porque nele nos fala o Filho em pessoa. É uma palavra de amizade: procede do amor, cresce na amizade e realiza uma obra de amor. Deus entra em comunicação com o homem, sua criatura, para estreitar com ele laços de amizade e para associá-lo à sua vida íntima. A revelação quer introduzir o homem na sociedade de amor que é a Trindade.

O homem pode comunicar-se com outro homem de múltiplas formas (gestos, acções, palavras, imagens... Assim também Deus pode comunicar-se com o homem. A revelação revela-nos a forma adoptada por Deus para falar à humanidade. Deus põe-se em comunicação com o homem pelas vias da encarnação e da história.

O concílio afirma que a revelação realiza-se mediante a conexão íntima de gestos e palavras. Pela palavra temos de entender as acções salvíficas de Deus: umas realizadas directamente por Deus, outras pelos profetas, seus instrumentos. No AT: o êxodo, a formação do reino, o desterro, a restauração; no NT: as acções da vida de Cristo, especialmente os seus milagres, a sua morte e ressurreição. Palavras são as palavras de Moisés e dos profetas que interpretam as intervenções de Deus na história; são as palavras de Cristo que declaram o sentido das suas acções; são as palavras dos apóstolos, testemunhas e intérpretes autorizados da vida de Cristo. As obras e palavras estão em estreita dependência e para serviço mútuo. O Deus que se revela é um Deus que entre na história e nela se revela como pessoa que opera a salvação do seu povo > libertação. Estas obras corroboram, isto é, apoiam, confirmam, atestam a doutrina e a realidade profunda, misteriosa, escondida nas obras e significada nas palavras. As palavras proclamam as obras e esclarecem o mistério contido nelas. Vejamos o que se passa no Êxodo: sem a palavra de Moisés que, em nome de Deus, interpreta para Israel esta saída como libertação tendo em vista uma aliança, o acontecimento não estaria carregado de plenitude de sentido que constitui o fundamento da religião de Israel. Os acontecimentos estão cheios de inteligibilidade religiosa e as palavras têm a missão de proclamá-la e esclarecê-la.

Ao insistir nas obras e nas palavras como elementos constittutivos da revelação, o concílio quer sublinhar o carácter histórico e sacramental da revelação: os acontecimentos iluminados pela palavra dos profetas, de Cristo e dos apóstolos. O carácter histórico da revelação aparece na acção mesma de Deus que sai do seu mistério e entra na história. O carácter sacramental da revelação aparece na compenetração e ajuda mútua de palavras e obras. Deus realiza o acontecimento de salvação e explica o seu significado. Opera e comenta a sua acção.


Por esta revelação nos manifesta, em Cristo, a verdade profunda acerca de Deus e do homem. Cristo diz-nos quem é Deus: o Pai que nos criou e nos ama como filhos; manifesta-nos também o Filho e palavra, que nos chama e convida a uma comunhão de vida com a Trindade, e o Espírito, que vivifica e santifica. Em Cristo, se nos revela também a verdade acerca do homem, isto é, que foi chamado e escolhido por Deus desde antes a criação do mundo para ser, em Cristo, filho adoptivo do Pai.

Cristo é o mediador e a plenitude da revelação. É a via escolhida por Deus para dar-nos a conhecer quem é Ele (Pai, Filho e o Espírito) e o que somos nós (pecadores chamados à vida). Cristo é a plenitude da revelação, isto é, é o Deus que revela e o Deus revelado, o autor e o objecto da revelação, o que revela o mistério e o mistério mesmo em pessoa (Jo 14, 6; 2 Cor 4, 4-6; Ef 1, 3-14; Col 1, 26-27). É em pessoa a verdade que anuncia e fala. Esta verdade que nele resplandece pede a adesão do nosso espírito: quer invadir a nossa vida para transformá-la e transformar-mo-nos em Cristo; tende, pela união com Cristo, à comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito.

(Preparação da revelação evangélica)


3. Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na obra da criação e, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se pessoalmente, desde o princípio, aos nossos primeiros pais. Porém, depois da sua queda, tendo-lhes prometido a redenção, deu-lhes a esperança da salvação e cuidou continuamente do género humano, a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática das boas obras, procuram a salvação. A seu tempo chamou Abraão, para fazer dele um grande povo, povo esse que, depois dos Patriarcas ensinou por meio de Moisés e dos Profetas, para que o reconhecessem como único Deus, vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e para que esperassem o Salvador prometido. Desta forma, preparou Deus, através dos séculos, o caminho do Evangelho.


A primeira manifestação de Deus deu-se na Criação. Deus revelou-se a nossos primeiros pais pela revelação histórica e pessoal.

Etapas da revelação veterotestamentária: promessa aos nossos primeiros pais; vocação de Abraão; instrução do povo eleito por Moisés e pelos profetas.

Depois da queda dos nossos primeiros pais (pecado original), Deus levantou-os pela promessa da redenção. Com a promessa começa a história da salvação, na qual todos são incluídos, ninguém fica excluído. O Povo de Israel é o depositário desta promessa.

Deus chama Abraão para o fazer pai de um grande povo, que é instruído através de Moisés e dos profetas. Deus forma o Seu povo para que reconheça n' Ele o Deus vivo e verdadeiro, o Pai que cuida dos seus filhos e para que espere o salvador prometido.

O texto do Concílio apresenta-nos a revelação como sábia pedagogia que forma e prepara o povo.

Arnaldo Vareiro

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

QUARESMA EM "LOUVOR PERENE"

No passado dia 2 de Fevereiro, o Senhor Arcebispo Primaz dirigiu à Igreja de Braga a Nota Pastoral “Louvor Perene”, querendo marcar as comemorações dos 300 anos do Lausperene na Arquidiocese, que, segundo dados históricos, começou no tempo do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, concedido pelo Papa Clemente XI em 12 de Outubro de 1709. Foi concedido primeiramente apenas à cidade de Braga, estendendo-se a toda a Arquidiocese aquando do 3º Congresso do Apostolado da Oração, realizado em Braga de 15 a 19 de Maio de 1957. Celebrar esta efeméride em pleno Ano Sacerdotal, é, refere D. Jorge Ortiga, “um dom de Deus, uma graça especial que merece a atenção de todos: pastores e fiéis. Somos convidados a dar graças pela imensa riqueza que, ao longo de três séculos, a Igreja Arquidiocesana recebeu com a sucessiva e contínua celebração do Lausperene. Mas somos também convidados a pensar que a Eucaristia é para o Sacerdócio e o Sacerdócio para a Eucaristia. Dois mistérios, dois sacramentos que tiveram a sua origem na Quinta-Feira Santa, no Cenáculo em Jerusalém. Jesus, Único e Eterno Sacerdote, quis perpetuar a Sua acção santificadora e salvífica através dos sacerdotes em Eucaristia.”
Temos vindo nos últimos números do nosso jornal a olhar para S. João Maria Vianney, modelo de vida sacerdotal, em várias facetas da sua vida. Neste mês, e em consonância com a proposta do nosso Arcebispo, convido-vos a olharmos para o Cura d’ Ars e a sua relação íntima e profunda com Jesus-Eucaristia.
S. João Maria Vianney “Não quereria ser pároco, mas estou muito contente de ser sacerdote para poder celebrar Missa” – disse o P. Vianney numa ocasião. Passava longos momentos ajoelhado, de mãos juntos e os olhos fixos no sacrário da pobre freguesia de Ars.
Em 1827, um pequeno estudante, que mais tarde chegou ao sacerdócio, ajudava-o como menino de coro e deixou este testemunho: “Estava admirado de o ver permanecer cinco minutos depois da consagração com as mãos e os olhos levantados, numa espécie de êxtase. Nós dizíamos, os meus companheiros e eu, que ele via a Deus. Antes da comunhão, parava alguns momentos; parecia conversar com Deus.” Muitos eram os que acorriam a Ars somente para o admirarem durante a celebração da Santa Missa, pois diziam que parecia-lhes ver “um anjo no altar”. Chorava durante quase toda a Missa. O exterior reflectia o que se passava no mais íntimo da alma: não fazia gestos exagerados ou inúteis; os seus olhos oravam ou contemplavam, ora elevados, ora baixos; as suas mãos suplicavam postas ou estendidas. Era uma pregação muda de uma eloquência sublime! Tudo nele respirava adoração!
Certa manhã, atormentava-o de tal modo o pensamento do inferno e o medo de perder a Deus para sempre, que gemia interiormente: “Ao menos deixai-me a Virgem Santíssima.” Durante uma Missa de Natal, à meia-noite, cantou-se depois da elevação um hino bastante comprido. Segundo o rito lionês, o celebrante devia, a partir de certo momento, sustentar a hóstia consagrada sobre o cálice até ao Pai Nosso. Então, conta uma testemunha, “vi como olhava aquela hóstia, ora com lágrimas, ora com um sorriso. Parecia falar-lhe; depois vinham as lágrimas e em seguida os sorrisos.” Depois da Missa, pedimos-lhe desculpa na sacristia por o termos feito esperar tanto tempo. “O tempo passou sem que me desse conta”, foi a resposta.
- Mas, Sr. Cura, que fazia quando tinha a hóstia consagrada nas mãos? Parecia estar muito comovido.
- Com efeito, ocorreu-me uma ideia feliz – respondeu o santo - Dizia a Nosso Senhor: Se soubesse que hei-de ter a desgraça de não Vos ver na Eternidade, visto que agora vos tenho nas mãos, não Vos largaria mais!”
Celebrar a Eucaristia em Igreja, Povo Sacerdotal e reunido pela Palavra de Deus, é celebrar a aliança entre o Esposo, Jesus Cristo, e a Sua Esposa, a Igreja. Saibamos neste tempo da Quaresma, a exemplo do Santo Cura de Ars, a não largarmos Jesus, Pão vivo descido do céu, mas a permanecermos em comunhão vital com Ele, que, cada dia na Eucaristia, cria e recria a Sua Esposa e a une consigo. A Quaresma deste Ano Sacerdotal seja um “Louvor Perene”, um “perder-se” no Esposo, que faz circular o Seu Sangue, a Vida Nova, em cada um de nós!
Arnaldo Vareiro

O CAMINHO DA QUARESMA

A celebração da Páscoa, como qualquer “tempo forte” da liturgia, é precedida por uma preparação intensa de conversão, chamada QUARESMA.
A palavra Quaresma (Quadragesima) quer dizer quarenta dias. Ao longo deste período revivemos os quarenta dias de Cristo no deserto e os quarenta anos de peregrinação dos israelitas pelo deserto até chegarem à terra prometida.
Com efeito, durante quarenta dias, Jesus prepara-se no deserto para o seu imediato ministério público, enfrentando as tentações e renovando a relação íntima com o Pai. Durante quarenta anos, o povo conduzido por Moisés, depois de sair do Egipto, a terra da escravidão, sofreu fome e sede; às vezes, sucumbiu face ao desânimo mas, antes de mais, viveu a experiência única da ternura de Deus (Ex 12-40).
É exactamente esta experiência de intimidade com Deus que todos os crentes devem reviver ao aproximar-se a Páscoa, para chegar com “a alegria de um coração purificado” à renovação das promessas realizadas no Baptismo, que é a aliança pessoal de cada cristão, e se encontrar profundamente com Cristo morto e ressuscitado na Eucaristia.
A nossa Arquidiocese de Braga continua a viver o seu programa pastoral “Tomar conta da Palavra que toma conta de nós”. Neste ano somos convidados a “Acolher a Palavra”. A Quaresma de 2010 deve ser para o povo de Deus um desafio exigente que o sensibilizará para escutar e acolher melhor o chamamento do Senhor, que nos convida à conversão.
Antigamente, no começo da Quaresma, a Igreja insistia mais nas modalidades da penitência; hoje, antes de mais, assinala-nos o seu objectivo me significado.
Mais do que o como fazer penitência, é importante saber o porquê, para que esta não se transforme numa prática superficial que não produz os frutos de conversão desejados.
A penitência da Quaresma orienta-se para Deus, a quem a honra, e para os irmãos, a quem consola. Nela se expressa com grande força a opção pessoal do discípulo de Jesus pelo duplo mandamento do amor: amor aos irmãos porque amamos o Pai misericordioso e cheio de ternura.
Mais do que uma ascese artificial e um mero cumprimento de preceitos, a Quaresma propõe a todos os homens que se esforcem por rever leal e sinceramente a sua maneira de ser, por descobrir onde se encontram no projecto que Deus tem para eles, o que é que querem e o que perceberam da vida cristã. Estes quarenta dias vividos com Israel no deserto, com Moisés, Elias e, sobretudo, com Cristo, são um período profundamente espiritual. Sabemos que devemos enfrentar a tentação, mas também sabemos que somos capazes de vencer com Cristo. Por outras palavras: realismo salutar e objectividade para nos reconhecermos pecadores, mas também esperanças renovadas diante da luz nova. Coragem para mudar, assim como para esperar…
Arnaldo Vareiro

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UM SANTO JUNTO A OUTRO SANTO

O P. Vianney celebrou a sua primeira Missa na capela do Seminário Maior, onde, no dia anterior, tinha recebido a ordenação sacerdotal. Era uma segunda-feira, 14 de Agosto de 1815. os Vigários Gerais tinham-no nomeado para coadjutor da paróquia de Ecully, onde ficaria com o seu velho mestre, o Padre Balley. Assim, o filho adoptivo ficaria junto do pai. Seria o seu auxiliar no meio de tantos trabalhos e quem lhe fecharia os olhos.

Os paroquianos de Ecully participaram da alegria do seu pastor. Diziam: “O padre Vianney edificou-nos muito quando esteve entre nós. Quanto mais agora que é sacerdote!” Com efeito, logo depositaram nele toda a confiança.

O neo-sacerdote recebeu as faculdades necessárias para confessar, depois de muitos meses após a nomeação de coadjutor. É curioso notarmos que o primeiro penitente que se lhe prostrou aos pés foi o seu próprio confessor, o P. Balley em pessoa.

O primeiro acto ministerial do P. Vianney data de 27 de Agosto de 1815 – um baptizado. Desde que souberam que ele estava “aprovado” pela Cúria Arquiepiscopal, o seu confessionário foi assediado pelos doentes espirituais que não procuravam outro. Isto roubava-lhe muito tempo, fazendo-o negligenciar as próprias refeições.

Na catequese, explicava cuidadosamente o catecismo, tornando-se pequeno com os pequenos. No púlpito de Ecully era breve mas claro, não receando dizer as verdades mais duras e fustigar certos vícios. Pregava a pureza dos costumes e a perfeição da vida cristã. O P. Vianney era o primeiro a dar o exemplo. Era muito simples e muito franco. Orava e mortificava-se para dominar o mal, o pecado. Os seus recursos pessoais passaram para as mãos dos pobres, dava tudo o que tinha.

Deus, porém, não colocara o P. Vianney em Ecully somente para exercer o ministério paroquial; mandara-o para uma escola de santidade. O P. Balley era um sacerdote muito mortificado. Entre ele e o coadjutor estabeleceu-se logo uma aterradora emulação de austeridade; era, no dizer de um sacerdote da época, “um santo junto a outro santo!” Algum tempo depois, o P. Vianney fez esta humilde declaração: “Terminaria por saber um pouco mais se tivesse a dita de viver sempre com o P. Balley. Ninguém como ele fazia ver até que ponto a alma pode desenvencilhar-se dos sentimentos terrenos e o homem assemelhar-se aos anjos. Para se ter desejo de amar a Deus bastava ouvi-lo dizer: Meu Deus, eu vos amo de todo o coração.”

Estes dois sacerdotes levavam uma vida austera, fazendo refeições muito pobres, usando cilício, a tal ponto de o Vigário Geral afirmar: “Felizes de vós, povo de Ecully, por terdes padres que deste modo fazem penitência por vós!” Levavam uma vida em comum marcada pela amizade que os unia e também pelo elevado grau de piedade e de santidade.

Decorria o ano de 1816 e as primeiras semanas de 1817 quando o P. Balley, não passando dos 65 anos, envelhecido antes do tempo e caminhando para a eternidade, cai no leito devido a uma úlcera na perna, da qual nunca mais sarou. Dali em diante quase não tomou parte no ministério paroquial. Durante esse período cada vez mais penoso, de dia e de noite, substituía-o em quase tudo o abnegado coadjutor. Sofria sem se queixar. A 17 de Dezembro, depois de se ter confessado com o seu filho predilecto e depois de ter recebido a Sagrada Comunhão e a Santa Unção, cheio de méritos adormeceu no Senhor o venerado pastor de Ecully.

Conta-se que, depois de administrada a santa unção, os paroquianos retiraram-se, ficando a sós pároco e coadjutor. O moribundo deu ao P. Vianney os útlimos conselhos e recomendou-se às suas orações. Depois, retirando sob o travesseiro os instrumentos de penitência, murmurou-lhe ao ouvido: “Toma, meu filho, esconde isso; se os encontrarem depois da minha morte, julgarão ter eu expiado suficientemente os meus pecados, deixando-me no purgatório até ao fim do mundo.” As disciplinas e os cilícios do P. Balley, como veremos nos próximos números, não ficaram sem uso. O P. Vianney chorou-o como a um pai.

Pouco depois da morte do P. Balley, os paroquianos de Ecully apresentaram à Cúria de Lião um pedido para que o P. Vianney ficasse como pároco, mas a petição não logrou êxito, pois o interessado não quis aceitar como veio a confirmar mais tarde: “Não teria gostado de ser pároco de Ecully, a paróquia era demasiado importante.” Entretanto, o P. Tripier tomou o lugar do P. Balley, continuando o P. Vianney como coadjutor, mas não por muito tempo.

Em 21 de Janeiro de 1818 ficou vacante uma pequena capelania no departamento de Ains, pois o seu capleão, um jovem sacerdote de 27 anos, acabara de falecer tuberculoso, apenas contando 23 dias de trabalho no sagrado ministério. Ars estava vacante. Era uma aldeia pequena e pobre com 230 habitantes – valeria a pena mandar para lá um sacerdote? Uma intervenção pessoal da castelã do lugar, a menina Ana des Garets, que se empenhava em considerar a sua aldeia como uma verdadeira paróquia, apressou os Vigários Gerais a decidirem-se.

Nos princípios de Fevereiro, o P. João Maria Vianney, coadjutor de Ecully, foi avisado que a capela e a aldeia de Ars estavam confiadas ao seu zelo. Foi ter com Mons. Courbon que, ao assinar a provisão, lhe disse: “Não há muito amor de Deus naquela paróquia. Vossa Reverência procurará introduzi-lo.”

Em 3 de Fevereiro de 1818, o P. Vianney escreveu em Ecully o último acto do seu ministério. No dia 9, pela manhã, pôs-se a caminho de Ars.


Arnaldo Vareiro

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ensina-nos o segredo, Ir. Fernanda!

Quando alguém escreve está a “defender a solidão em que está” (María Zambrano); é uma acção que brota somente de um isolamento afectivo, mas de um isolamento comunicável. Escrever é o contrário de falar; fala-se por necessidade momentânea imediata, fazêmo-nos prisioneiros do que pronunciámos, enquanto que no escrever se acha libertação e perdurabilidade. As grandes verdades não costumam dizer-se a falar. A verdade do que se passa no secreto seio do tempo é o silêncio das vidas, e que não pode dizer-se! A vida, a nossa vida, não se diz, escreve-se! A morte, essa sim, diz a vida; desvela o segredo da vida!

Faz hoje, 5 de Janeiro, um ano que a morte desvendou-me e contou-me um segredo: a vida da Ir. Maria Fernanda Sousa Fernandes! É impossível reduzi-lo a este espaço, mas não o poderei calar jamais porque algo me compele e a ordem que me é dada vem de fora. E o segredo tem duas faces: uma vida da música do coração e uma vida com o Amor no coração.

Grande era a paixão da Ir. Fernanda pela música, que lhe brotava com leveza do seu simples e grande coração, esse “espaço vital”, que vibra com os acordes doces da alegria, da bondade, da ternura, da simplicidade, da amizade. Todos eles compuseram essa sinfonia que durante 37 anos ressoou no coração daqueles que privaram com a Ir. Fernanda: a família, os amigos, os seus alunos, os membros da Obra do Amor Divino e tantos que com ela se cruzaram. Ela sabia que “o coração é a víscera mais nobre porque leva consigo a imagem de um espaço, de um dentro obscuro secreto e misterioso que, em algumas ocasiões se abre” (María Zambrano). Este abrir-se é a sua maior nobreza, é o sinal da mais pura generosidade; torna-se activo, torna-se interioridade aberta, que arrasta todo o ser para esta dinâmica de pura vibração, de vida. Vida é esta incapacidade de um órgão desligar-se de outro, um elemento de outro.

O coração da Ir. Fernanda continua vivo porque passivo e dependente do Amor de Deus. Aos 34 anos de vida, ela quis, na Obra do Amor Divino, que o seu profundo fosse um espaço diferente, um espaço criado pela acção de algo não feito para estar no espaço e que o cria para que alguém que vive no espaço e anda por ele possa contactá-lo. O profundo é uma chamada amorosa. O coração é esse trabalhador constante do “conhece-te a ti mesmo” (Sócrates) diante do Deus Amor.

Foi no dia 6 de Agosto de 2007, Festa da Transfiguração do Senhor, que a Ir. Fernanda quis montar a “sua tenda” com Cristo, sabendo que a Glória pedia o caminho da cruz. Os últimos dias da sua vida foi um autêntico caminho de dor, mas uma dor co-redentora porque unida à paixão de Cristo. Que belo segredo nos contou a vida, sobretudo da doença, da Ir. Fernanda: transportar a dor com sentido e no Sentido! Como encarnou e enraizou no seu coração a espiritualidade da Obra do Amor Divino: oferecer-se continuamente no altar da vida quotidiana, amando a Deus e os irmãos!

Trazia de tal modo Deus no coração, que “estou de que nem a morte... a separou do amor de Deus (Rom, 38-39). Deus a acompanhou na morte, notada pela serenidade e total passividade n'Ele que no seu rosto transparecia. “Senhor, nas tuas mãos entrego a minha vida, o meu ser, a minha pessoa.” Foi com esta confiança que a Ir. Fernanda atravessou esta última porta e foi acolhida pelo Deus amor, criador amoroso. Deus fechou por ela a porta da vida terrena e da morte ao abrir os seus braços para acolher o seu ser para a ressurreição, para a comunhão dos bem-aventurados, porque a sua vida foi uma permanente configuração ao amor de Deus.

Hoje, às 17 horas, na igreja paroquial de Travassos (Póvoa de Lanhoso) nos reuniremos como assembleia de irmãos que creem no Deus que salva por amor para Lhe darmos graças por nos ter contado este terno e belo segredo que foi a tua vida, que foste tu!

Um dia nos encontraremos contigo e, em Cristo, viveremos a grande festa da Ressurreição; até lá, ensina-nos a fazer da nossa vida uma suave melodia para Deus e para os irmãos!


Arnaldo Vareiro

(Publicado no jornal "Diário do Minho" em 5.1.2010)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Para o fim de ano

Senhor, mais um ano de vida,
mais um ano de história,
para a eternidade!

Mais um ano de bênçãos e graças
que nos levam a louvar-Vos
por todos os vossos benefícios recebidos.

Obrigado, Senhor, 
pela minha família,
pelos meus pais.

Obrigado Senhor, pelo dom
da vossa Presença Eucarística,
pelo Evangelho, a Igreja,
o Papa, os Sacerdotes 
e os Consagrados.

Obrigado, Senhor, pelo dom
da educação, pela cultura,
pelo progresso da ciência
e do pensamento humano.
Obrigado, Senhor, por tudo 
o que de bom nos aconteceu durante o ano.

Recebei também um acto
de "arrependimento" pelos
pecados que poderia ter evitado
e não evitei:
Pai nosso...

Votos de um 2010 abençoado, vivido na Plenitude!
Arnaldo Vareiro

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Maria, mulher rodeada pelo amor redentor e santificador de Deus

Celebrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria é fazer memória do ano de 1854, quando o Papa Pio IX proclamou, na Bula Ineffabilis Deus, o dogma da Imaculada Conceição, declarando-o solenemente: “(...) pronunciamos e definimos que a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha de pecado original no primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em atenção aos méritos de Jesus Cristo Salvador do género humano, está revelada por Deus; e, por conseguinte, há de ser acreditada firme e constantemente por todos os fiéis”.

Nesta proclamação destacam-se dois aspectos: o da eleição eterna de Maria para Mãe do Filho Unigénito de Deus e o amor divino de predilecção que a cumulou de graça, que é a plenitude da inocência e santidade.

A santidade em Maria é isenção do pecado original e é comunhão esponsal com Deus. Maria possui os dons de Deus, desde o começo, de maneira incomparável. É Deus o início de todo o ser espiritual, é Ele quem rodeia a vida do Homem com um amor redentor, com uma fidelidade amorosa. Em Maria não é compatível o pecado com a sua santidade. Ela é a beleza imaculada, a Igreja santa virgem e mãe, a concretização pessoal da Igreja.

Entre o Antigo e o Novo Testamentos há uma relação de promessa-realização. Em Maria, a Antiga e a Nova Alianças são uma só realidade na sua resposta a Deus, uma resposta pura. Em Maria falta a oposição entre o ser de Deus e o não ser do homem. Ela é a toda entregue a Deus!

Maria é toda bela, isenta do pecado original. O que é o pecado original? É a recusa da graça, é a orientação para o mal, é a orientação para o pecado em vez da graça. É uma necessidade inevitável de pecar. É não viver no dinamismo da graça; se o Homem vivesse o dinamismo da graça desenvolveria as suas capacidades em comunhão com Deus.

O dogma da Imaculada destaca, em Maria, a capacidade radical de diálogo com Deus. Deus concedeu-lhe o privilégio de ser imaculada em vista de uma vida santa, confirmada pela missão de Maria na História da Salvação: ser a Mãe de Seu Filho, a própria Santidade! Maria começa a existir numa situação de tal proximidade com Jesus que é livre de toda a determinação no mal.

A Humanidade reencontra, em Maria, a possibilidade de prosseguir a marcha radical projectada por Deus no seu desígnio eterno de salvação. Nós, cada um de nós, somos membros desta Humanidade e dentro de cada um de nós há uma realidade transcendente que não pode ser contaminada. O divino, Deus, habita em nós. Maria é exemplo desta habitação de Deus e, por isso, devemos alegrar-mo-nos por um ser humano nos poder ensinar o caminho do divino, da plenitude que há em nós.

Deus deu-se-nos totalmente. Celebrar Maria é descobrir nela o que descobrimos em Jesus: a absoluta presença de Deus num ser humano. Em Maria, descobrimos que Deus é encarnação. Ela é Imaculada porque Deus está nela e este é o dom que Deus concede a todos os seres. Deus actua sempre em nós por pura graça, antes de o merecermos.

O tempo de Natal que vivemos convida-nos a sentir e a experimentar mais intensamente esta presença de Deus. Maria soube ser tabernáculo, soube acolher Deus! É tempo de, com a Senhora Imaculada do Sameiro, rodeada pelo amor redentor e santificador de Deus, descobrir a “pérola” preciosa que está dentro de nós. A Senhora diz-nos: “Deus está em ti, Deus faz (é) parte de ti, que não deves nem podes ofuscar!” Se fizermos esta redescoberta todo o nosso ser será luz!

A Senhora do Sameiro nos ajude a sermos “arcas de Deus”, que transportam Deus, a Luz, para o nosso mundo, para o nosso país, para os que vivem à nossa volta envoltos em trevas e que, aos pés da Mãe, suplicam: “Ó Senhora Imaculada, ajoelhados a teus pés, confiamos mais uma vez!”


Arnaldo Vareiro

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

INTRODUÇÃO À DEI VERBUM


  1. Propósito do Ano Pastoral

No ano pastoral 2009-2010 seremos conduzidos pela mesma Palavra para a acolher e viver. «Acolhemos a Palavra» é o lema que nos acompanhará suscitando outras iniciativas. Importa que o acolher se oriente para o viver. Não pretendemos saborear egoisticamente um dom oferecido. Sabemos que tudo se projecta na vida e que o mundo necessita de ler a Palavra divina no quotidiano dos nossos pensamentos e acções. […] Este ano, temos como instrumento de trabalho essencial a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, um precioso documento introdutório para a leitura e escuta orante da Palavra de Deus.


  1. Introdução


    1. O Mundo da Palavra Humana

Deus falou na Sagrada Escritura por meio de homens e de maneira humana” (DV 12).

A história da Bíblia é história da Palavra de Deus aos homens. O AT e o NT descrevem-nos o itinerário da Palavra de Deus, a qual: cria o mundo (Gn 1), chama Abraão (Gn 12, 1ss), é dirigida aos profetas de Israel (Os 1,1; Jr 1,2 etc); assume o rosto de homem em Jesus de Nazaré (Jo 1, 1-14), “difunde-se, cresce e afirma-se com força” com a dilatação da Igreja apostólica (Act 6,7; 12,24; 19,20), regula o fim do universo e o início do novo mundo (Ap 19, 11-16; 21,1ss).

Ela é-nos sempre dada pela mediação humana.

Nisto manifestou-se a “admirável condescência de Deus e a sua inefável benignidade”: Com efeito, as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens” (DV 13)

Falando na linguagem dos homens, Deus ama-os e comunica-Se com eles, restituindo à linguagem humana a sua vericidade.


    1. Homo loquens”

Homem como animal que fala. A palavra introduz-nos no mundo humano. Falar, dar um nome, é de certa forma chamar à existência, tirar do nada.

O Adão bíblico penetra o ser de cada animal para dar-lhe um nome (cf. Gn 2, 19-20). A imposição do nome é um “acto da actividade ordenadora com a qual o homem se apodera espiritualmente das criaturas, objectivando-as diante de si”1.

Através da palavra, o homem passa a morar em si mesmo e de certa forma apropria-se de si. Ele procura a sua “autocompreensão”. Ele tem necessidade da disciplina da palavra para compreender-se e exprimir-se > mistério do ser-homem. A Palavra possibilita-lhe a comunicação com o outro. A palavra humana deveria exprimir uma “meta-física” das relações. Se as palavras não reflectirem e não colocarem em acção a dinamicidade criativa da relação, se as palavras não forem continuamente retomadas e actualizadas, elas estarão destinadas a degradar-se.


3. As três funções da Palavra

3.1. A palavra é “informação”


A palavra informa sobre factos, acontecimentos, coisas, geralmente enpregando um verbo no indicativo e na terceira pessoa. A linguagem das ciências exactas tem um formulário técnico e rigoroso. Na linguagem da didáctica prevalece a informação objectiva, mas todo o docente sabe muito bem que não pode prescindir daquela dimensão “formativa”. Na historiografia, o narrar não pode esgotar-se na simples apresentação dos factos, mas deverá ter uma certa dose subjectiva positiva: a palavra, que dá vida ao facto narrado, é “sua” (expressão) e convoca o leitor (apelo).


3.2. A palavra é “expressão”


Todo o homem que fala exprime-se, diz alguma coisa de si mesmo. Para comunicar-se e “informar”, o Homem deve, em certa medida, exprimir-se, ou seja, pôr em movimento o seu ser, correr o risco de saída de si, dispondo-se a um desmascaramento mínimo de sua interioridade (ex.: Abraão – sai de ti, vai para ti).


3.3. A palavra é “apelo”


A palavra humana, por sua natureza, busca o outro, tem paixão pelo outro, porque o homem é “relação”. Mais uma vez, o Adão bíblico é emblemático. Vejamos (Gn 2, 18). Adão dá um nome aos animais, mas não fala aos animais; ele busca um “tu”capaz de compreender e acolher a exigência interior de dar-se livremente. Vive para o encontro e a comunicação. Vive de encontro e comunicação. A palavra é o traço-de-união entre o “eu” e o “tu”, princípio original de toda a comunhão renovada.


4. A Palavra é criativa


A palavra, directa ou indirectamente, é sempre “apelo” a outro e exige, por sua natureza, uma resposta. A palavra não poderá deixar de provocar uma livre ressonância no “tu” que é intimamente tocado.

A palavra dá a cada um a revelação de si na relação recíproca com o outro. O homem faz-se “eu” no diálogo com um “tu”. Toda a palavra, proferida ou ouvida, tem a possibilidade de despertar. Na reciprocidade do “eu” e do “tu”, a palavra tende a criar a unidade do “nós”.


5. A linguagem da amizade e do amor


No encontro de amizade com o outro, o amigo não teme realizar o tremendo trabalho de libertar o sentido secreto do seu ser. E, depois de ter comunicado livremente o seu eu e de tê-lo oferecido ao livre acolhimento do outro, o amigo pode recomeçar o itinerário nunca definitvo da descoberta de si e do outro. Meias-palavras, alusões, silêncios, olhares, podem dizer muito mais do que muitas palavras exactíssimas.

Na palavra da amizade e do amor, “cada qual dá ao outro a hospitilidade essencial, o melhor de si”. Santo Agostinho diz: “Se não temos, nenhuma coisa neste mundo nos parecerá amável.”

O “eu” e o “tu”, tornados “nós na amizade, tocam o invisível e intocável “Tu” divino. Vejamos a experiência de Agostinho e sua mãe Mónica, evocada nas Confissões:

“Ao aproximar-se do dia em que devia sair desta vida, dia conhecido a Ti, desconhecido a nós, aconteceu, por obra Tua, creio, segundo os Teus misteriosos desígnios, que nos encontrássemos ela e eu sozinhos, apoiados numa janela que dava para o jardim da casa que nos hospedava, lá junto a Ostia Tiberina, longe dos rumores da multidão, procurando restaurar-nos da fadiga de uma longa viagem e tendo em vista a travessia do mar. conversávamos, pois, sozinhos com grande doçura (...). buscávamos entre nós a presença da Verdade, que és Tu, procurando entender qual seria a vida eterna dos santos (...). Abrimos avidamente a boca do coração ao jacto supremo da tua fonte, a fonte da vida (...). Elevando-nos com o mais ardente ímpeto de amor para o próprio Ser, percorremos todas as coisas corpóreas e o próprio céu (...). E ainda subindo acima de nós mesmos com a consideração, a exaltação, admiração das Tuas obras, chegamos às nossas almas e superamos também estas para alcançar a região da abundância inexaurível, onde apascentas Israel para sempre com a pastagem da verdade, e onde a vida é a Sabedoria (...). E enquanto falávamos dela e nos sentíamos atraídos por ela, pudemos captá-la um pouco com o ímpeto total da mente, e suspirando deixamos ali presas as primícias do espírito, para tornar a descer depois ao som vazio das nossas bocas, onde a palavra tem princípio e fim”2.


6. A Palavra amiga de Deus


A DV do II Concílio do Vaticano fala nestes termos da Revelação: “Em virtude desta Revelação, Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos e conversa com eles para os convidar e admitir a participarem da Sua própria vida.” (DV 2).

A Revelação de Deus é descrita com a categoria da palavra, mais ainda, do diálogo amigável. Para revelar-se, Deus falou aos homens e usou a linguagem humana da amizade com uma finalidade precisa que é a comunhão de vida.


7. A “Dei Verbum”, pórtico da Bíblia


Esta constituição foi promulgada oficialmente pelo Papa Paulo VI a 18 de Novembro de 1965. Esta constituição é logicamente o primeiro dos grandes documentos do Vaticano II.

Hoje, vamos ler a analisar o proémio (prólogo), quem na realidade introduz no conjunto da obra conciliar.


1. O sagrado Concílio, ouvindo com devoção a Palavra de Deus e proclamando-a desassombradamente, faz suas as palavras de S. João, quando diz: “anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós; o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com Seu Filho, Jesus Cristo” (1 Jo 1, 2-3). Por isso, seguindo as pisadas dos Concílios de Trento e Vaticano I, propõe-se expor a genuína doutrina sobre a Revelação Divina e a sua transmissão, para que o mundo inteiro, ouvindo a mensagem da salvação, acredite; acreditando, espere; esperando, ame.


  1. Dei Verbum. Estas duas palavras expressam na realidade todo o conteúdo. Deus, o Deus vivente, falou à humanidade. O termo “palavra de Deus” aplica-se primariamente à revelação, a esta primeira intervenção pela qual Deus sai do seu mistério, dirige-se à humanidade para desvelar-lhe os segredos da vida divina e comunicar-lhe o seu desígnio salvífico. Este é o feito, a acção que domina os dois testamentos e do qual a Igreja vive. Esta palavra de Deus, dirigida uma vez para sempre, perdura através dos séculos, sempre viva e actual, na Tradição e na Escritura.

A atitude da Igreja: escuta e proclama a palavra de Deus. Com fé, recebe a palavra do Senhor e, em virtude da sua missão profética que recebeu de Cristo, a proclama.

Este texto enuncia, em termos bíblicos, o essencial da constituição. A vida, que estava no Pai, junto do Pai, foi-nos manifestada. Deus saiu do seu mistério e, por mercê da humanidade de Cristo, João pode ver e ouvir o Verbo de vida. João anuncia o que viu e ouviu, a fim de que os homens, mediante a fé no seu testemunho, participem nesta experiência e, com ele, entrem em comunhão de vida com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. Epifania de Deus em Jesus Cristo, mediação do testemunho apostólico, a mediação de nós, catequistas, participação do homem na vida trinitária. O texto de João descreve todo o movimento da revelação: a vida em Deus, a vida que baixa até ao homem e, em Jesus Cristo, manifesta-se para levar à comunhão de vida, para tornar à fonte da vida – o Pai.


2. A segunda frase indica a finalidade da constituição. O Concílio propõe-se expôr a verdadeira doutrina acerca da Revelação e da sua transmissão numa linha de continuidade/ruptura.

1 G. Von Rad, Genesi, Paideia, Brescia, 1978, 2ª ed., p. 102.

2S. Agostinho, Confissões, 9, 10, 23-24.